Chico Science, antes de Afrociberdelia

Chico Science, antes de Afrociberdelia

Eu tinha 18 anos quando vi Chico Science & Nação Zumbi pela primeira vez. Foi em outubro de 1996, em Belo Horizonte, num show de aquecimento para o lançamento do segundo disco da banda, Afrociberdelia. Saí de lá com a sensação de ter testemunhado algo que não era só música: era um terremoto cultural. Era como se aquele clichê do garoto que vê um show de rock pela primeira vez e decide que quer aquilo para a vida finalmente fizesse sentido pra mim. Chico dominava o palco como ninguém: misturava passos de caboclos de lança do maracatu com movimentos sincopados, como se tentasse ensaiar passos humanos de caranguejo — o animal-símbolo do Manguebeat, do qual a banda era, junto com o Mundo Livre S/A, a principal representante. Como se não bastasse, o wha-wha hendrixiano e o peso dos tambores me hipnotizavam. Foi a primeira vez que ouvi ao vivo músicas como Macô, O Cidadão do Mundo e Manguetown, que se tornaria uma das canções mais constantes da minha vida. Diante do palco, parecia claro que o recado era esse: mangue não era atraso, era antena conectada com o mundo.

No fim da apresentação, tive a cara de pau de entrar no camarim. Chico me recebeu com simplicidade, e até hoje guardo o setlist do show, onde escreveu uma frase enigmática: “O bom do som é poder tocá-lo”. Nunca soube se era piada, filosofia ou apenas uma provocação, mas guardei como quem guarda um enigma.

Ainda tomado pela experiência, inventei de cortar o plug de um fone velho e usá-lo como pingente. Um símbolo da mitologia Manguebeat, a tal antena que conecta o regional ao global. Claro, era cópia descarada do Fred Zero4, do Mundo Livre S/A, que já usava o seu, original. Mas na minha cabeça aquilo me dava um ar “cool”, uma senha secreta de pertencimento. Fingindo que entendia de tudo, quando na real era só um moleque tentando se infiltrar na cena e tirar algum proveito do adereço.

Alguns meses depois, no Carnaval de 1997, veio a notícia do acidente. Estava em casa quando ouvi no rádio que Chico Science tinha morrido. Parecia impossível: aquele corpo elétrico que incendiava o palco agora reduzido ao silêncio. A Nação Zumbi seguiu em frente, ergueu-se e resistiu — mas pra mim nunca mais foi a mesma coisa.

Hoje, tanto tempo depois, me pego pensando em como os mais jovens, que não viram Chico, lidam com sua memória. Será que a admiração deles é parecida com aquela idolatria póstuma que cercou gente como Jimi Hendrix ou Jim Morrison, décadas depois de suas mortes? Sempre fico tentando medir o tamanho de um mito que, pra mim, foi carne, suor e tambor. O vazio foi imediato, mas a antena que ele fincou no mangue continua conectada até hoje, lembrando que dali nasceu uma revolução cultural que nunca se apagou.