O Juntatribo e o debut do alternativo brasileiro

O Juntatribo e o debut do alternativo brasileiro

Reprodução / Facebook Juntatribo

Nos primeiros anos da década de 1990, enquanto ainda se buscava entender o que seria do rock brasileiro pós-anos 1980, Campinas se tornou por alguns dias o centro da música alternativa no país. Foi no campus da Unicamp que nasceu o Juntatribo, festival idealizado pelo estudante de química da universidade, Sérgio Vanalli, e criado com a ideia de reunir bandas independentes de todo o Brasil. Era um momento em que o rock brasileiro parecia não se preocupar mais em assumir as guitarras sujas, letras em inglês e, cada vez mais, buscar o do it yourself.

Era um palco montado sob uma lona de circo e estrutura improvisada, com caixas de som emprestadas, tendas adaptadas e energia improvisada. Do it yourself não era, portanto, o lema apenas de bandas, mas também de quem as colocava para tocar.

Reprodução / Facebook Juntatribo

Juntatribo (1993)

A primeira edição aconteceu em agosto de 1993, no célebre Observatório a Olho Nu da Unicamp – uma espécie de clareira de terra vermelha batida ampla e afastada dos prédios principais da universidade, que reuniu uma média de 2500 pessoas por noite.

A divulgação, feita principalmente por fanzines e pelo boca a boca, teve um efeito muito além do esperado. O Juntatribo acabou se tornando um marco da independência artística, impulsionando bandas que começavam a conquistar um público cada vez maior. Para se ter uma ideia, foi ali que os brasilienses do Raimundos – sobre os quais já havia muita expectativa, diante da inesperada mistura entre forró e hardccore – fizeram uma de suas primeiras apresentações em São Paulo, ainda antes do lançamento do álbum de estreia.

Pela primeira vez, bandas independentes de Brasília, Belo Horizonte, Santos e Sorocaba dividiram o mesmo palco com igualdade e visibilidade. No total, 17 grupos se apresentaram, sendo quatro de fora de São Paulo. Além dos Raimundos, merecem destaque Killing Chainsaw (Piracicaba), Second Come (RJ) e Low Dream (Brasília), que ajudaram a formar uma nova geração de bandas que preferia cantar em inglês, marcando uma virada estética na cena alternativa nacional. O sucesso foi tão grande que a expectativa para a edição seguinte cresceu desproporcionalmente.

2º Juntatribo (1994)

A segunda edição aconteceu em setembro de 1994, no mesmo local. Desta vez a curadoria foi mais ambiciosa, já que 27 bandas foram selecionadas entre 400 fitas demo enviadas pelos grupos interessados. (Para os incautos de hoje, “fita demo” eram gravações caseiras em cassete, enviadas por correio ou trocadas em shows, uma espécie de moeda de circulação do underground.)

Com maior notoriedade, o público cresceu: média de 3000 pessoas por noite. O festival ganhou cobertura da MTV Brasil, então no seu auge, no Lado B, programa do ex-VJ Fábio Massari. O Juntatribo 2 trouxe a expectativa de ser uma grande vitrine da nova geração do rock alternativo nacional para público, mídia e também para a indústria fonográfica. Num momento em que gravadoras começavam a sondar o underground, parecia crível que dali pudesse surgir um Nirvana brasileiro. Entre os destaques estavam Planet Hemp (RJ), Virna Lisi (BH) Câmbio Negro e Little Quail and The Mad Birds (DF), bandas que, anos depois, se tornariam referências da música alternativa e autoral.

Apesar de tudo, o evento não ocorreu sem percalços. Logo no primeiro dia, uma sexta-feira, o palco cedeu durante um dos shows, interrompendo as apresentações. As bandas seguintes, frustradas, foram reagendadas para o dia seguinte. Como se não bastasse, e poucos sabiam disso, sob o palco quebrado estavam os instrumentos de outra banda. Prejuízo total.

No sábado, uma confusão entre punks e integrantes de uma banda de hardcore resultou no cancelamento de parte do line-up. A tensão e o clima de excessos daquela edição acabou incomodando o idealizador do projeto. No último dia do festival, Sérgio Vanalli anunciou à imprensa que não daria sequência ao Juntatribo. Em entrevista, disse estar descontente com os rumos que o evento havia tomado, citando violência, excessos e vaidade: “No primeiro, era um público interessado na música. Neste, teve gente que veio pelo oba-oba.”

Mesmo com os problemas, o Juntatribo 2 se tornou um ponto de inflexão na história da música independente brasileira. A partir dali, gravadoras e selos alternativos começaram a apostar em bandas da nova safra e a MTV abriu de vez o espaço para o rock nacional fora do mainstream.

Legado

Apesar de ter tido apenas duas edições, o festival deixou sua marca na história da música independente e na memória de quem esteve lá, como eu. O Juntatribo foi o primeiro festival brasileiro a mapear a cena alternativa nacional de maneira articulada, reunindo estilos, linguagens e sotaques diversos, com punk, noise, metal, rap e industrial sob o mesmo palco. Deu visibilidade a nomes que se tornaram centrais — Raimundos e Planet Hemp, que alcançariam o mainstream, e Killing Chainsaw, Pelvs e Pin Ups, que consolidariam o underground.

Confusões, excessos e brigas à parte, o Juntatribo foi um marco importante na música independente brasileira, ainda lembrado como um dos retratos mais autênticos do espírito do it yourself dos anos 90.

Você sabia?

  • O nome “Juntatribo” surgiu da ideia de unir diferentes estilos e públicos em um mesmo espaço.
  • O palco do festival foi literalmente um picadeiro de circo alugado com verba arrecadada pela cantina da engenharia elétrica da Unicamp.
  • O Juntatribo 1994 foi transmitido em parte pela MTV Brasil, no programa Lado B, e é considerado a primeira cobertura televisiva de um festival 100% independente no país.
  • Após o festival, gravadoras começaram a caçar “a próxima banda alternativa de sucesso”, em plena febre grunge e os Raimundos, revelados no Juntatribo, foram os primeiros a assinar um contrato nacional, como o selo Banguela, da Warner Music.

Para assistir

  • Lado B – Mundo Cão – Especial Juntatribo 1993

  • “Time Will Burn – O Rock Underground Brasileiro do Começo dos Anos 90, de Marko Panayotis e Otavio Sousa