Festival de Águas Claras: o Woodstock brasileiro

Festival de Águas Claras: o Woodstock brasileiro

Reproducão / Facebook Edu Depose

Se existiu no Brasil algo minimamente próximo do Woodstock (1969) foi o Festival de Águas Claras. Tudo começou com uma ideia inicialmente pequena – a encenação de uma peça de um rapaz de 22 anos para um grupo próximo na fazenda da família, que cresceu organicamente até se tornar algo impensável à época, década de 1970. Na Fazenda Santa Virgínia, em Iacanga (SP), Antonio Cecchin Jr. (conhecido como Leivinha) transformou um pasto em local de espetáculo. O palco de madeira e prego fazia parte de uma estrutura mínima organizada que incluía ainda uma ambulância, sanitários e uma feira de artesanato. Amigos foram convocados no boca a boca, sob um pacto tácito de convivência ao som de música e paz. Em plena ditadura, a contracultura plantou barraca no interior.

1975: Rock

A primeira edição, em janeiro de 1975, foi modesta em recursos, mas ambiciosa no propósito. Havia um palco enorme de madeira, barracas de comida e artesanato com ingressos baratos e um público que chegou a dezenas de milhares. A primeira edição acabou sendo mais roqueira em essência, com bandas como O Terço, Som Nosso de Cada Dia, Phoenix e Apokalypsis. Antes mesmo de abrir os portões, o idealizador, Leivinha, precisou negociar com as autoridades e assinar compromissos ‘morais’, já que, à época, todo festival era visto como potencial afronta aos ‘bons costumes’ ditados pelo regime. Funcionou.

1981: Menos rock, mais MPB

A estrutura cresceu, a venda de ingressos se profissionalizou (chegaram a ser vendidos em bancos, como o extinto Unibanco) e a cobertura aumentou. O line-up saiu do controle, no melhor dos sentidos. Reuniu pesos pesados como Raul Seixas, Gilberto Gil, Hermeto Pascoal, Alceu Valença, Egberto Gismonti, entre outros.

1983: MPB, rock e…João Gilberto?

A terceira edição (1983) foi aquela única fotografia instantânea que dá certo quando ninguém pisca. Fagner, Sivuca, Paulinho da Viola, Sandra Sá, Dodô & Osmar, Erasmo, Wanderléa e…João Gilberto? Será? O cartaz do festival, ao menos, indicava o improvável. Conhecido pelo comportamento imprevisível, surgiu o rumor de barraca em barraca: “João vem mesmo?”

Seria possível que o rei da sutileza se apresentaria num ambiente cheio de amplificadores? Era um headliner que destoava e, por isso, fascinava. Se viria, como viria, a que horas viria. O suspense acabou se tornando o primeiro ato do espetáculo. E eis que, exatamente às 6 horas da manhã, com o céu clareando, João apareceu. Sentou-se no banquinho, afinou o violão e inverteu a gramática do festival eletrificado. A multidão virou sala de concerto.

O rumor do fundão recuou e o canto baixo e milimétrico fez o mundo descer. Passarinhos inauguraram o turno e os grilos atrasados ainda davam expediente. A natureza acabou servindo de backing vocal. Em um festival conhecido pelo barro, sol e gente sem fim, o que ficou foi o controle da música sobre os corpos. O gesto mínimo de um homem sentado se tornou a epígrafe da edição inteira. O compasso que organiza o caos.

1984: MPB, rock, falhas técnicas e muita chuva

A quarta edição, diferentemente das demais edições, aconteceu em fevereiro, durante o Carnaval, período de chuvas na região. Embora contrariado, o idealizador teve que ceder à pressão dos patrocinadores. Dito e feito. Um temporal. Caiu água demais. Houve grande desgaste logístico, as ambições estavam altas demais. Como se diz por aí, foi muita água para pouco feijão.

Legado

Mas a ousadia rural foi notável. Apesar do desgaste e do insucesso de 1984, Águas Claras permanece como ponte entre passado e presente. Um evento, um método: reunir contrários, aceitar o improviso, confiar que a música constrói permanências onde menos se espera. Por alguns dias, em meio à ditadura militar, numa pastagem do interior, inventou-se um país provisoriamente poético. E, quando a alvorada pediu atenção, um homem num banquinho mostrou que a utopia pode caber em um acorde silencioso.

Um pouco dessa história, com arquivos raros, bastidores e depoimentos, pode ser visto no documentário O Barato de Iacanga, de Thiago Mattar (2019), disponível na Netflix.