O Girl Power Made In Brazil

O Girl Power Made In Brazil

Bikini Kill - Crédito: Wikimedia Commons

Em 1997, o quinteto inglês Spice Girls surgiu no universo da música pop com sucessos como Wannabe e Say You’ll Be There e uma filosofia a qual deram o nome de girl power. Basicamente, era um manifesto de empoderamento feminino, muito calcada no slogan do grupo feminino de punk rock Bikini Kill –embora as popstars britânicas ressaltem ainda mais a união entre as mulheres.

O cenário musical brasileiro, ora vejam só, teve seu quinhão de girl power muito antes das meninas das Spice Girls bradarem o slogan em apresentações ao vivo ou na TV. O caso autóctone se deu através de popstars que assumiram o controle de suas carreiras, na maioria das vezes enfrentando o tradicional machismo da indústria (sei que não tenho lugar de fala, mas esse texto foi baseado nas entrevistas que fiz com algumas dessas cantoras) para impor suas ideias e concepções.

May East e Fernanda Abreu são dois exemplos do girl power brasileiro. E, curiosamente, os discos mais simbólicos dessas cantoras estão sendo relançados no país em vinil –por, respectivamente, Três Selos/Rocinante e Clube do Vinil, da Universal Music. O primeiro colocou à venda em seu site Remota Batucada, de 1985, que marcou a estreia solo da cantora e compositora paulistana. Fernanda, por seu turno, traz uma inédita versão em vinil de Da Lata, seu terceiro disco solo, lançado em 1995, e que marcou a cristalização do estilo “batuque samba funk” e contou com dois produtores –o brasileiro Liminha e o inglês Will Mowat, que fizeram um diálogo precioso entre as gingas brasileiras e inglesas.

May e Fernanda saíram de bandas pop consagradas, mas nas quais eram um elemento decorativo. Eram, apesar de todo o talento, as meninas bonitas que faziam vocais de apoio. May pertenceu à Gang 90, combo new wave criado pelo jornalista e pensador Júlio Barroso, que colocou nas rádios sucessos como Nosso Louco Amor e Perdidos na Selva. A estreia solo de May é um retrato sonoro da São Paulo nos anos 1980, em que o tom plúmbeo das canções contrastavam com o chamado “rock de bermuda” da cena carioca.

Remota Batucada traz alguns dos principais nomes do pós punk e da música eletrônica paulistana –por exemplo, os guitarristas Miguel Barella e Fernando Deluqui, o vocalista Guilherme Isnard e o tecladista Kodiak Bachine– em faixas que se alternam entre o pop e o experimental. May East não esconde a influência de Siouxsie Sioux, grande dama do gótico inglês (Fire in the Jungle, Twilight Zone), mas dá personalidade a canções de sua própria autoria, como Índio, Caim & Abel e Idéias de Brincar.

Fernanda Abreu demorou cinco anos para estrear em carreira solo. Com o primeiro fim da Blitz, em 1986, ela resistiu às tentações de lançar um disco (“para não ser esquecida”, confessa a cantora, revelando a ansiedade da gravadora) e lançou SLA – Radical Dance Disco Club (1990), um trabalho influenciado pela disco music. Da Lata é seu terceiro disco e traz um amálgama entre funk carioca, disco, soul music e samba. O que faz dele um trabalho único na carreira. O sucesso do álbum está sendo recontado no documentário Da Lata 30 anos, que conta como Fernanda idealizou o disco e sua estrutura sonora.

May East e Fernanda Abreu, dois exemplos do empoderamento feminino made in Brazil.