Tim Maia Racional: a fase espiritual (e mais controversa) do artista

O disco que virou religião e transformou a trajetória de um dos maiores ícones da música brasileira

Tim Maia Racional: a fase espiritual (e mais controversa) do artista

Nos anos 1970, Tim Maia já era conhecido pelo seu vozeirão, pela mistura de soul, funk e samba, e por uma presença que ocupava o palco inteiro. Mas tudo mudou quando ele mergulhou no universo do Racional, uma filosofia que propõe o retorno do ser humano a um estado de perfeição, vindo de um mundo superior, o Mundo Racional.

O resultado foram dois discos quase místicos, lançados entre 1974 e 1975: Tim Maia Racional Vol. 1 e Vol. 2. Canções como Imunização Racional (Que Beleza) e O Caminho do Bem não eram apenas músicas; eram mantras, guias e declarações de fé. O som ganhou outra dimensão: o groove continuava, mas a letra se voltava para o introspectivo, o espiritual e o sagrado.

O Racional não era só um projeto musical; era uma transformação total. Tim passou a viver cada instante como prática de fé, e sua música reflete isso: shows, entrevistas, atitudes cotidianas, tudo se tornava ritual. O artista que antes flertava com o prazer e a vida boêmia agora dançava entre o terreno e o espiritual, fazendo de cada acorde e de cada frase uma confissão de devoção.

Mas nem tudo foram flores. A religiosidade profunda do Racional gerou polêmicas, afastou amigos e dividiu fãs. Quando os discos foram lançados, a gravadora inicialmente não soube como lidar com eles. O conteúdo espiritual e o tom introspectivo foram chocantes para parte do público e da indústria musical da época, resultando na pouca distribuição e vendas baixas na época.

“Cadê o disco voador?

No fim de 1976, o cantor percebeu que os discos voadores, tão aguardados pelos fiéis jamais chegariam, e reagiu como só Tim Maia poderia reagir. Segundo relatos, ele chegou a invadir a sede da Universo em Desencanto, acompanhado de sua banda, furioso com o guru Manoel Jacintho, aos gritos e acusando o líder de charlatanismo “Cadê o disco voador? Cadê o disco voador?”.

Ainda assim, aqueles discos resistiram, não apenas como registros musicais, mas como arte que propunha sentido e transcendência. Quem ouve hoje percebe a coragem de um artista que ousou transformar sua música em filosofia de vida. E mais de quarenta anos depois, Tim Maia Racional continua sendo um marco. Não apenas por sua musicalidade, mas pelo exemplo de um artista que se entregou completamente à sua própria verdade. Tim mostrou que a música não precisa ser só entretenimento: pode ser caminho, manifesto e, em última instância, redenção.