Jackson do Pandeiro
Rei do Ritmo

Jackson do Pandeiro - Divulgação
Dados Biográficos
No coração quente do Nordeste, onde o couro vibra e a poesia nasce do chão, surgiu um homem que transformou o tempo em dança, a fala em ritmo e o Brasil em um grande terreiro de musicalidade. Jackson do Pandeiro inaugurou um jeito de sentir o som. No seu pandeiro cabia o mundo, e no seu canto, a liberdade.
Nascido José Gomes Filho, em 1919, na pequena Alagoa Grande, na Paraíba — ele é daqueles artistas que ocupam o imaginário nacional com a força dos mitos. Cantor, compositor, percussionista genial e poeta orgânico, reinventou a cadência brasileira ao misturar coco, samba, forró, rojão, baião e embolada com a ousadia de quem sabia que a música é, antes de tudo, uma manifestação política-cultural.
Ele foi a voz que atravessou décadas dizendo que “o ritmo é meu dono”, frase que se tornou quase um lema de liberdade artística — e que hoje ecoa em tantos músicos que reconhecem nele um mestre da pluralidade sonora. Na época em que o país buscava identidade, Jackson ofereceu um mapa: a música como território de resistência, de afirmação, de povo.
Sua presença era uma aula de precisão. Cada sílaba, um batuque. Cada palavra, um tiro certeiro. Quando cantava “se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”, mostrava a potência de usar o humor para acender reflexões profundas sobre o Brasil real, aquele da malandragem institucionalizada, das desigualdades que insistem em se repetir, e assim, ele se fazia intérprete da alma brasileira. Seu canto falava de trabalho, de festa, de amor, de luta e de política — não a política dos gabinetes, mas a vivida na feira, no terreiro, no terreiro, no batuque coletivo. Sua obra aproximou a elite cultural do povo e elevou ritmos marginalizados ao posto de tesouro nacional.
De 1953 em diante, quando estourou com Sebastiana, o Brasil nunca mais foi o mesmo. Vieram O Canto da Ema, Forró em Limoeiro, Chiclete com Banana, Cantiga do Sapo, Xote de Copacabana e tantos outros que se tornaram indispensáveis no cancioneiro nacional. A grandeza de sua obra é tamanha que, até hoje, a música brasileira se reorganiza ao seu redor.
E quando dizia que queria “um samba diferente, com muito mais balanço”, antecipava o futuro — o samba plural, híbrido, aberto ao mundo, mas jamais desconectado da ancestralidade. Seu legado atravessa gerações: Alceu Valença, Lenine, Elba Ramalho, Chico Science, Zeca Pagodinho, Marcelo D2 e tantos ritmistas modernos assumem, sem pudor, que são herdeiros diretos desse mestre do compasso.
Sua influência segue viva em rodas de samba, palcos pop, nas escolas de música, no forró universitário, nos arranjos experimentais, nos festivais independentes. É impossível ouvir a música brasileira contemporânea sem reconhecer ali o toque invisível de Jackson — ora na síncope, ora na divisão rítmica, ora no jeito de brincar com as palavras, ora na coragem de desafiar padrões.
Morreu em 10 de julho de 1982, mas nunca partiu. Jackson permanece onde há batuque, onde há voz que se rebela, onde há artista que se permite ousar. É guardião de um país que ainda tenta encontrar seu ritmo, seu centro, seu pulso.