Jovelina Pérola Negra
Joia rara do samba

Jovelina Pérola Negra - Divulgação
Dados Biográficos
A voz de Jovelina Pérola Negra nasce como quem brota do chão quente da Baixada Fluminense, carregando poeira, riso, dor e festa. Jovelina Farias Belfort veio ao mundo em 1964, em São João de Meriti, no Rio de Janeiro, e cresceu na Pavuna, território de samba cotidiano, onde a música era forma de existir. Antes de ser cantora, foi doméstica, vendedora, mulher comum atravessando a dureza da vida urbana, até que o samba — já entranhado — encontrou caminho profissional no fim dos anos 1980. Morreu cedo, em 1998, aos 33 anos, deixando a sensação de obra interrompida e, ao mesmo tempo, completa na intensidade.
Sua formação musical veio do partido-alto de quintal, da tradição oral, dos sambas cantados em rodas e terreiros, ouvindo Clementina de Jesus, Candeia, Dona Ivone Lara, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e os sambistas anônimos que faziam do verso improvisado um gesto de sobrevivência. Jovelina não “aprendeu” a cantar, já emergiu cantando. Seu estilo era frontal, direto, com suingue seco e precisão rítmica. O timbre — grave, metálico, áspero e luminoso ao mesmo tempo — tornou-se sua assinatura. A voz parecia sempre um pouco maior que o corpo, cheia de ataque, verdade e autoridade, daquelas que não pedia licença.
O primeiro grande marco veio quando venceu concursos de samba e passou a circular pelas rodas mais respeitadas do Rio, chamando a atenção de produtores e músicos. Em 1990, lançou seu álbum de estreia, que a apresentou ao grande público como uma força rara no samba. Vieram depois discos que consolidaram sua identidade e ampliaram seu alcance nacional, sempre mantendo o partido-alto como espinha dorsal, mas dialogando com o samba de raiz urbano, o pagode de fundo de quintal e a canção popular brasileira. Nos palcos, Jovelina era presença absoluta: postura firme, sorriso aberto, canto como declaração.
O impacto cultural de Jovelina é profundo, especialmente por afirmar uma mulher negra como centro do discurso do samba de partido-alto em uma indústria historicamente dominada por homens. Sua música falava de amor, abandono, dignidade, ironia e resistência, com consciência social implícita. Havia política em sua simples existência pública: uma mulher preta, da periferia, cantando sua própria história com autonomia e sucesso. Como ela mesma dizia, “o samba é verdade, não tem como fingir”.
Depois dela, vieram mulheres do samba e do pagode que passaram a se reconhecer naquele timbre forte e naquela atitude sem concessões. Seu repertório foi regravado por nomes como Alcione, e Maria Rita, além de grupos de samba que mantêm viva a tradição do partido-alto. Colaborou com compositores e músicos centrais do gênero, sempre respeitada como cantora “de dentro” do samba.
Entre as músicas mais importantes de sua trajetória estão Feirinha da Pavuna, que virou quase um retrato sonoro de seu território afetivo, Sorriso Aberto e Luz do Repente, canções que atravessaram rádios, rodas de samba e gerações. Mesmo com uma carreira curta, Jovelina permanece atual porque sua música fala de sentimentos humanos essenciais, sem verniz, sem moda passageira. Sua voz continua ecoando como lição de verdade artística: cantar é assumir quem se é. Em tempos de produção excessiva e emoção calculada, ela reverbera como contraponto — lembrando que o samba nasce da vida e volta para ela transformado em canto como uma pérola negra, e rara.