Maysa
Dramaticidade Confessional

Maysa - Divulgação
Dados Biográficos
Maysa Figueira Monjardim nasceu em 1936, em São Paulo. Filha de família tradicional, criada entre São Paulo e o Rio de Janeiro, teve formação cosmopolita e cedo conviveu com música, literatura e artes, num ambiente que ajudou a moldar sua sofisticação estética e emocional. Começou a compor ainda jovem e estreou profissionalmente em 1956, quase por acaso, quando gravou um disco para uso interno da gravadora RGE e acabou revelada como intérprete e compositora de talento raro.
Suas influências iam do samba-canção ao bolero, do jazz às canções francesas, passando pela tradição da canção romântica brasileira dos anos 1940 e 1950. O estilo de Maysa era marcado por uma dramaticidade intensa, quase confessional, que rompia com a postura mais contida das cantoras de sua geração. Sua voz tinha timbre grave, levemente rouco, com dicção precisa e fraseado elástico, capaz de sugerir fragilidade e força ao mesmo tempo. Cantava como quem vive o que diz, transformando dor, amor, solidão e desencanto em matéria-prima artística.
Entre os eventos decisivos de sua carreira estão o sucesso imediato de Ouça, em 1956, que a projetou nacionalmente, a separação de André Matarazzo Neto em 1960 — escândalo para os padrões da época — e a decisão de viver de forma independente, algo que se refletiu diretamente em sua imagem pública e em seu repertório. Nos anos 1960, Maysa construiu também uma trajetória internacional, gravando discos e se apresentando em países como Espanha, França, Itália, Argentina e Estados Unidos, muitas vezes cantando em espanhol, francês e inglês. Essa circulação ajudou a consolidar sua imagem de cantora sofisticada e intensa, alinhada a uma tradição internacional da canção romântica.
Culturalmente, Maysa teve impacto profundo por encarnar uma mulher à frente de seu tempo. Em plena sociedade conservadora, assumiu escolhas pessoais e artísticas sem pedir licença, cantando a dor feminina, o desejo, a culpa e a liberdade com franqueza incomum. Sem fazer militância explícita, sua figura teve peso político simbólico: a mulher que se divorcia, que bebe, que ama demais, que cai e levanta, e que transforma tudo isso em arte. Sua atitude abriu caminho para uma expressão feminina mais autônoma na MPB.
Como compositora e intérprete, influenciou cantoras que vieram depois, da intensidade de Elis Regina à dramaticidade de Maria Bethânia, passando por vozes como Nana Caymmi, Simone, Adriana Calcanhotto e tantas outras que enxergam em Maysa um modelo de entrega emocional e rigor artístico. Suas canções foram e seguem sendo regravadas por artistas diversos, incluindo Elis Regina, Gal Costa, Bethânia, Cauby Peixoto, Ney Matogrosso e Zizi Possi, entre outros. Maysa colaborou com nomes centrais da música brasileira, gravando obras de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli e outros compositores da era pré-bossa nova e da MPB nascente, ao mesmo tempo em que se afirmava como autora de repertório próprio.
Canções como Meu Mundo Caiu, Resposta, Felicidade Infeliz, Alguém Me Disse e Por Causa de Você, se tornaram clássicos pela força interpretativa e pela universalidade dos sentimentos que carregam. Fora do Brasil, foi respeitada como intérprete sofisticada e ajudou a apresentar uma face mais dramática e adulta da canção nacional fora do país. Em 2009, teve sua história retratada na minissérie Maysa: Quando Fala o Coração, na TV Globo, interpretada por Larissa Maciel e dirigida pelo filho, Jayme Monjardim.
Morreu precocemente em 1977, aos 40 anos, em um acidente de carro na Ponte Rio–Niterói. Décadas depois de sua morte, no entanto, sua música segue reverberando com força. Suas canções continuam atuais porque falam de emoções essenciais, sem ornamento excessivo ou ingenuidade. Em tempos de exposição e confissão, sua obra soa quase contemporânea: direta, intensa, vulnerável. Maysa permanece como um símbolo de liberdade emocional e artística, uma artista que transformou a própria vida — com seus excessos, quedas e lampejos de beleza — em uma obra que ainda comove, inspira e provoca.