Mundo Livre S/A
A ironia musicada do manguebeat
Dados Biográficos
O movimento manguebeat teve em Chico Science & Nação Zumbi seu estandarte mais visível, mas foi com o Mundo Livre S/A que ganhou sua espinha crítica e conceitual. Criada em 1984 em Recife, a banda liderada por Fred Zero4 se firmou como um dos dois pilares centrais do movimento – o outro, sendo Chico, que enquanto traduzia a energia da lama em explosão percussiva, Fred escrevia manifestos e ironias afiadas sobre a cena cultural e política brasileira.
O primeiro disco, Samba Esquema Noise (1994), lançado no mesmo ano que Da Lama ao Caos, é considerado um marco. O título faz um jogo direto com Samba Esquema Novo, de Jorge Ben Jor, em um aceno à ousadia de quem, nos anos 1960, reinventou o samba e o balanço pop. Da mesma forma, o Mundo Livre S/A propunha um “esquema” próprio, misturando guitarras e batidas que dialogavam com o samba, o funk e a bossa nova, numa colagem sonora que parecia, à época, inconcebível. Fred Zero4, com suas letras mordazes, não poupava ninguém, da indústria cultural à classe política.
Nos anos seguintes, discos como Guentando a Ôia (1996) e Por Pouco (2000) mostraram que a banda não se limitava a ser um mero coadjuvante da cena manguebit. Ao contrário, o Mundo Livre S/A se firmou como uma voz singular, mais cerebral, mas igualmente visceral.
O Mundo Livre segue ativo, lançando discos e mantendo viva a inquietação do movimento. A Dança dos Não Famosos (2018) e Walking Dead Folia (2022) reforçam a capacidade da banda de atualizar-se sem perder a verve crítica. A banda continua sendo cultuada, inspirando tanto músicos quanto pesquisadores interessados em entender o manguebeat não apenas como música, mas como pensamento.