Nelson Gonçalves
A eterna voz da boemia

Nelson Goncalvez - Reprodução Instagram
Dados Biográficos
Nelson Gonçalves (1919 – 1998) foi, talvez, o último dos grandes crooners brasileiros – dono de uma voz poderosa, que embalou paixões e se tornou sinônimo de rádio e boemia por mais de meio século. Filho de imigrantes portugueses, nascido em Santana do Livramento (RS), bem na fronteira com o Uruguai, fez um pouco de tudo antes de se tornar cantor. Já morando com a família em São Paulo, ainda pequeno, acompanhava o pai, violinista, que tocava em feiras e praças – cantarolando e ganhando gorjetas dos passantes.
Trabalhou como mecânico, engraxate, polidor e chegou até mesmo a se aventurar no boxe – foi campeão paulista no esporte. Nunca, porém, abandonou o sonho de ser artista. Foi somente nos anos 1940 que, enfim, conquistou o Brasil com sucessos como A Volta do Boêmio, Fica Comigo Esta Noite e Mariposa, músicas que se confundiram com a própria paisagem sentimental do país.
Ao lado do compositor Adelino Moreira, formou uma das parcerias mais prolíficas da canção popular, responsável por transformar dramas cotidianos em hinos da vida comum. A voz grave, carregada de emoção, fazia cada sílaba soar como confissão – uma qualidade que lhe rendeu tanto idolatria quanto uma certa aura trágica, sobretudo quando sua carreira foi marcada por escândalos pessoais e pela luta contra o vício em cocaína, nos anos 1950.
Sua música estava fortemente ligada a uma tradição que os mais jovens talvez desconheçam hoje em dia: a seresta, uma prática comum em décadas passadas, quando grupos de amigos percorriam as ruas à noite cantando debaixo das janelas em serenatas que misturavam romantismo e boemia. Nelson deu voz a esse espírito, tornando-se intérprete de um Brasil que se reconhecia na canção noturna, carregada de lirismo e exagero sentimental. Ainda assim, Nelson não se rendeu ao estigma. Reconstruiu a própria trajetória com disciplina e palco. Fez turnês lotadas, vendeu milhões de discos e consolidou-se como um dos artistas mais populares da história da música brasileira. É até hoje um dos artistas que mais vendeu discos no país. Se por um lado carregava a imagem de cantor da era do rádio, por outro não deixou de se reinventar.
Já no fim da vida, mostrou que não queria ser apenas guardião da memória, mas também ponte para o futuro. Em 1997, lançou o disco Ainda é Cedo, no qual emprestou sua voz a sucessos de artistas modernos – de Cazuza a Legião Urbana, passando por Lulu Santos e Lobão – gravados em duetos com alguns dos próprios intérpretes. O gesto foi ousado: um ícone da era do rádio dialogando com o pop e o rock brasileiro, com sua voz atravessando gerações sem perder força nem atualidade.
Quando morreu em 1998, aos 79 anos, deixou uma discografia com mais de duas mil gravações e cerca de 80 milhões de discos vendidos. Deixou a marca de um intérprete que soube dar densidade emocional ao que cantava. Nelson foi, em última instância, o cronista musical das paixões brasileiras, um cantor que transformou dor, amores e esperanças em melodia e que, mesmo às portas do século 21, soube se fazer ouvir como se estivesse sempre começando de novo.