Roberta Miranda

A majestade do canto do sabiá

Roberta Miranda

Roberta Miranda - Reprodução Instagram

Nome Artístico
Roberta Miranda
Nome verdadeiro
Maria Albuquerque Miranda
Data de nascimento
28 de setembro de 1956
Local de nascimento
João Pessoa, Paraíba

Dados Biográficos

Há vozes que nascem de dentro da terra. Que brotam da dor, do amor e da esperança — como se cada nota fosse uma oração. Assim é a de Roberta Miranda: firme como a raiz do sertão e delicada como o canto do sabiá.

Rainha coroada pelo povo, a cantora transformou sua dor em arte e seu canto em revolução. Num universo dominado por homens, ela ergueu a bandeira da mulher sertaneja — forte, sensível e dona da própria história. O caminho foi árduo: enfrentou o machismo, a fome, a violência e os “nãos” de uma indústria cega para o talento feminino. Ainda assim, manteve-se fiel à sua essência de emoção, poesia e fé.

Nascida Maria Albuquerque Miranda, em João Pessoa, na Paraíba, cresceu na miséria. “Fomos miseráveis porque não tínhamos o que comer”, declarou. Aos oito anos, mudou-se com a família para São Paulo, onde a música se tornou refúgio e destino. O vizinho, o maestro Hermeto Pascoal, foi um de seus primeiros mestres — o som que atravessava a rua e a inspirava a sonhar. Mas a adolescência lhe trouxe uma verdade dura: descobriu não ser filha biológica da mãe que a criou e, expulsa de casa, Roberta conheceu o fundo do poço — dormiu onde dava, trabalhou em salões, bares e boates, cantando em troca de um prato de comida. Sofreu violências, perdeu um filho, mas nunca perdeu a fé. Prometeu à mãe que mudaria o destino das duas — e cumpriu.

Antes mesmo de se lançar como cantora, já era reconhecida como compositora — mais de 400 músicas gravadas por nomes consagrados. Hoje são mais de 800 composições, entre elas verdadeiros clássicos. No início, o samba quase a levou: escreveu Mãe Guerreira para Clara Nunes e canções para Ruy Maurity e Sônia Santos. O chamado do sertão, no entanto, falou mais alto.

A virada veio com A Majestade, o Sabiá, eternizada por Jair Rodrigues — o hino que abriu as portas do país para Roberta e a transformou em um fenômeno popular. Vieram os discos de diamante, as multidões, os aplausos. Vieram também os palcos do mundo e a consagração definitiva como Rainha do Sertanejo.

Entre mais de 30 milhões de discos vendidos, Roberta construiu uma carreira de fé, generosidade e resistência. Gravou, compôs e inspirou gerações. Em 2017, reuniu as novas vozes femininas do sertanejo no DVD Os Tempos Mudaram — um marco de sororidade e reconhecimento. Ao lado de Marília Mendonça, emocionou o país: “Ela nos colocou no lugar onde deveríamos estar”, disse a jovem e saudosa cantora.

Em 2025, celebrou 40 anos de carreira e lançou sua biografia, Um Lugar Todinho Meu, escrita pela jornalista Joyce Pascowitch — um relato sincero e necessário sobre dor, superação e fé. E, como quem encerra o ciclo com flores, voltou aos palcos ao lado de Ana Castela, regravando Vá com Deus — um encontro de gerações, unidas pela força feminina que Roberta ajudou a plantar.

Hoje, ela olha para trás sem se vitimizar. “Nunca me viram lamentar. Sou uma vencedora. Cheguei aqui. Mas, aos cinco anos, de fome, cheguei a comer muro. Você sabe o que é isso?”, disse, sem medo da verdade. Roberta Miranda é a prova viva de que a arte pode curar. Sua voz ecoa como um canto ancestral que resiste ao tempo e à dor — lembrando que, mesmo quando tudo parece desabar, ainda há poesia no sertão e sabedoria no canto do sabiá.