A Bossa Rara de Nara
Nara Leão - Foto Divulgação

Em meados do ano passado, o produtor Raymundo Bittencourt arrumava seu estúdio quando se deparou com uma preciosidade: uma fita contendo oito gravações de Nara Leão (1942-1989). E não eram registros qualquer: tratavam-se de clássicos da bossa nova, movimento que exportou a imagem de um Brasil sofisticado para o resto do mundo.

A Bossa Rara de Nara, que chegou às plataformas de streaming no dia 25 de janeiro (aniversário de Tom Jobim e Dia da Bossa Nova) é uma versão 2.0 dos registros originais. Pelo conteúdo, percebe-se claramente que se trata de uma voz guia –para quem não sabe, aquela gravação inicial que “guia” os músicos que irão tocar na faixa. Mas não importa: Nara fica boa de qualquer jeito.

Nara Leão ficou conhecida pelo epíteto de “musa da bossa nova”. Isso porque era em seu apartamento, localizado no bairro de Copacabana, que jovens músicos e cantores se reuniam para mostrar suas novas composições. Os violonistas Roberto Menescal e Carlos Lyra, a cantora Sylvia Telles e o jornalista Ronaldo Bôscoli (além de rasantes de Tom Jobim e João Gilberto) eram alguns dos presentes a essas reuniões. Mas quando lançou seu disco de estreia, em 1964, Nara já tinha se desvinculado do movimento que a transformou em objeto de adoração. O foco dela naquele período eram os compositores do morro, como Zé Keti, Nelson Cavaquinho e Cartola, além de canções de tons políticos de Carlos Lyra, Edu Lobo, Vinicius de Moraes e Ruy Guerra, que contrastavam com o otimismo exacerbado dos bossa-novistas.

Nara gravou o que quis, quando quis e como quis. Foi uma das primeiras artistas a olhar com mais carinho para os sambistas que citei no primeiro parágrafo e uma crítica de primeira hora do regime militar –ato que fez com que ela fosse perseguida a ponto de se exilar em Paris. Gravou autores marginalizados pela elite cultural do país –…E Que Tudo Mais Vá pro Inferno, de 1978, todo dedicado às canções de Erasmo e Roberto Carlos– e retomou a bossa nova quando achou conveniente. Seus discos ao lado de Roberto Menescal são um monumento à delicadeza e ao bom gosto.

Eu era um fã ardoroso de heavy metal quando me deparei com uma apresentação de Nara no Festival de Verão, no Guarujá, no início dos anos 1980. A doçura incrustada nas letras e no violão da cantora me fizeram repensar seriamente se valia a pena continuar escutando meus “gritalhões” prediletos –tudo bem, tem uns que ainda fazem parte da minha coleção, mas Nara mudou a minha cabeça. Em 2007, quando fiz uma matéria chamada A Nação das Cantores, sobre a hegemonia das intérpretes do sexo feminino, fiz questão de colocá-la como uma das escolas mais importantes da geração. Como o canto bem colocado e afinado, apesar da voz pequena, era tão importante quanto a emoção de Elis Regina, o repertório sambístico de Clara Nunes e a técnica de Marisa Monte. Hoje, essa referência está cada vez mais forte. A Bossa Rara pode não ser o disco que ela merece. Mas é uma excelente porta de entrada para o talento de um dos nomes mais expressivos da música brasileira.