As biografias do rock nacional são injustas com as bandas paulistanas dos anos 1970. Pode fazer o teste: quase todos os textos que falam daquele período citam Mutantes –com muitas críticas à fase em que flertaram com o rock progressivo–, Secos & Molhados, Rita Lee e Novos Baianos, passando depois para a explosão da geração dos anos 1980. Quando, enfim, retratam aquele período, tecem críticas às letras e à produção inferior às dos roqueiros internacionais.
Eu fui adolescente nos anos 1980. A minha formação, portanto, era muito mais calcada no pós-punk paulistano e brasiliense daquele período –Voluntários da Pátria, Plebe Rude, Legião Urbana e afins– do que o rock básico de um Made in Brazil ou a influência do rock progressivo do Casa das Máquinas. E as letras, para quem relacionava a história de Ainda é Cedo, da Legião Urbana, com o fim de uma relação amorosa recente, também não ajudavam. Era um tal de “Hey, larga o meu pé/ Você até parece chiclé” (de Anjo da Guarda, do Made) ou “Ele subiu aos céus/ E voltou uou uou/ É o maior dos pássaros” (de Columbia, do Patrulha do Espaço).
Mas, parafraseando o grande Paulo Francis, “apenas os idiotas não se contradizem”. E a chegada da maturidade nos faz com que entendamos melhor a dificuldade de se fazer rock’n’roll naquele período –e olha que em Orra Meu, Rita Lee já tinha dado a letra em versos como “roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido.” O cabeludo daquele tempo tinha de driblar os órgãos da repressão, a censura (Massacre, disco que o Made in Brazil pensou em soltar no ano de 1977 não passou pelo crivo dos arguidores) e a precariedade dos equipamentos e dos técnicos de som que não conseguiam compreender a beleza de um vocal gritado e uma guitarra distorcida. Isso sem falar na falta de informações –revistas, equipamentos e discos importados demoravam meses (isso mesmo: MESES) para chegar ao país. Quer dizer, quando chegavam. As bandas daqueles tempos foram heróicas na confecção de discos que merecem ser escutados e apreciados. Curiosamente, alguns desses trabalhos estão sendo relançados por aqui –em CD ou luxuosas versões em vinil.
O primeiro da lista é o Made in Brazil. Criado em 1967 no bairro paulistano de Pompéia pelos irmãos Oswaldo e Celso Vecchione (baixo e vocais e guitarra, respectivamente) e mais uma penca de vocalistas e instrumentistas que por ali passaram, é um dos grupos mais longevos do país e pioneiro em muitas coisas –por exemplo, no uso da maquiagem. O disco de estreia do conjunto, também chamado de “disco da banana” por trazer, óbvio, uma banana na capa, está saindo em CD e posteriormente deve ganhar uma versão em vinil.
Sim, é o trabalho que rima “pé” com “chiclé”, porém traz algumas das principais formações do grupo: Cornélius Lúcifer nos vocais e uivos em dia, Rolando Castello Júnior na bateria e Babalu na guitarra base. O repertório traz desde músicas calcadas no rock básico dos Rolling Stones e do hard rock dos anos 1970 –A Mina e Doce, por exemplo– e uma versão rock de Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Interessou? Mande seu pedido para [email protected]
O Patrulha do Espaço foi criado pelo tecladista e cantor Arnaldo Baptista depois de sua saída dos Mutantes e traz, entre seus integrantes, o baterista Rolando Castello Júnior (sim, aquele do Made), o baixista Coquinho e John Flavin, que havia tocado nos Secos & Molhados. Seu segundo disco, de 1981 (já sem Arnaldo, Flavin e Coquinho) está saindo em vinil, em edição limitada –apenas 300 cópias. Reforçado pelos vocais e guitarra de Eduardo Chermont e pelo baixo de Sérgio Santana, o conjunto apresenta um de seus melhores trabalhos: um instrumental muito próximo do rock pesado internacional, um entrosamento perfeito entre Junior e Sérgio e um de seus principais hits –Vampiros, que me faz lembrar as festas de rock de Santos, minha cidade natal, nos anos 1980. Pedidos pelo email [email protected]
O Casa das Máquinas, por seu turno, é um projeto de Netinho, ex-baterista dos Incríveis. Duas baterias –no caso, Netinho e seu irmão, Marinho–, os teclados psicodélicos de Mario Testoni, a guitarra de Piska e os vocais de Aroldo Santarosa fazem de Lar das Maravilhas (1975), segundo disco do conjunto, em discoteca básica do rock nacional. Tem pelo menos um hit absoluto: Vou Morar no Ar, uma disfarçada crítica ao autoritarismo do governo militar. Pouco depois, o cantor Simbas, talentoso e andrógino que só ele, entraria no lugar de Aroldo e eles lançaram o ótimo Casa do Rock (1976). Sérios candidatos à banda número um do país, tiveram a carreira interrompida por causa do envolvimento na morte de um cinegrafista. Lar de Maravilhas é um relançamento da gravadora Três Selos/Rocinante (https://www.tresselosrocinante.com). Dê uma chance ao rock nacional dos anos 1970.