Lindomar Castilho: O Bolero e a Infâmia
Lindomar Castilho - Foto Divulgação

 “Também morre quem atira”, diz o verso de Hey Joe, versão do quarteto carioca O Rappa para um clássico do repertório de Jimi Hendrix (embora a canção original seja de Billy Roberts). O refrão não existe na letra original, mas lembrei dele como nunca ao saber da morte de Lindomar Castilho. O intérprete de boleros como Você é Doida Demais, Nós Somos Dois Sem Vergonha e Eu Vou Rifar Meu Coração morreu dia 19 de dezembro de 2025 em Goiânia, de infecção pulmonar. Tinha 89 anos e há tempos andava mal de saúde.

O vozeirão e o estilo derramado com o qual cantava seus boleros poderia credenciar Lindomar ao panteão dos grandes intérpretes populares, daqueles que de tempos em tempos é revisitado em discos-tributo e seriados de televisão (embora Os Normais, estrelado por Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães tenha usado Você é Doida Demais como um de seus temas –o que é pouco). Mas ele optou pelo caminho da infâmia. No dia 31 de abril de 1981, o cantor entrou na boate Belle Époque, em São Paulo, e disparou vários tiros contra sua ex-mulher, a também cantora Eliane de Grammont. Por ironia do destino, ela cantava “agora era fatal/ Que nossa história terminasse assim”, de João & Maria, quando foi alvejada com uma bala no coração.

O crime de Lindomar aconteceu pouco tempo depois que um calhorda chamado Doca Street alegou “legítima defesa da honra” para assassinar sua então namorada, a pantera mineira Ângela Diniz, e sair do tribunal como um homem livre (ele recebeu uma pena de dezoito meses, que tinha cumprido antes de ser colocado a julgamento). Pouco tempo depois, Doca foi levado novamente à júri popular e saiu como uma condenação de míseros doze anos. O caso de Lindomar, que alegou ter matado “por amor”, gerou o ditado “quem ama não mata”, usado posteriormente como título de uma série da Globo.

O cantor pegou doze anos, divididos entre São Paulo e Goiânia, seu estado natal. Na cadeia da região centro-oeste, houve um certo “relaxamento” da carceragem e o tratamento dado a Lindomar foi mais, digamos, brando. A mancha de seu ato criminoso, no entanto, nunca saiu. Ele foi perseguido pelo movimento feminista, que protestou –merecidamente, aliás– contra todas tentativas que fez para retomar a carreira. Uma delas aconteceu em 2000, quando eu era repórter de uma revista semanal. O “Rei do Bolero” lançou um disco ao vivo, no qual relia sucessos de sua carreira e outros hinos do brega. Ele foi solenemente ignorado por todos.

Eu contatei Lindomar justamente para falar desse projeto. Conheci um sujeito sem o cavanhaque característico, com dificuldade para caminhar e perturbado pelo crime que havia cometido –ao qual chamava de “cagada” ou “burrada”. Ou seja, “também morre quem atira”: ao cometer o ato, Lindomar Castilho acabou por soterrar toda chance que poderia ter no universo artístico. Culpa, que fique bem claro, única e exclusivamente dele. 

O único momento de vida que surgiu em seus olhos foi quando falou da filha, Liliane, fruto do casamento dele com a mulher que havia assassinado duas décadas atrás. Foi ela quem decidiu se reaproximar do pai, perdoando inclusive o ato hediondo que ele tinha cometido. Liliane se manteve ao lado do pai até os momentos finais e chegou a criar uma coreografia – ela é uma bailarina e coreógrafa premiada– baseada em três canções do repertório dele. “Se eu perdoei? Essa resposta não é simples como um sim ou um não. Ela envolve todas as camadas das dores e das delícias de existir, de ser um ser complexo e em constante transformação”, escreveu ela, quando anunciou a morte do pai.

Hey Joe/ O que o teu filho vai pensar/ Quando a fumaça baixar?”, pergunta Marcelo Falcão na bela versão de O Rappa. No caso de Lindomar e Liliane, ela optou por tentar entender o homem que a gerou e cometeu um ato tão tenebroso.