Não Fale Mal de Nelson
Nelson Cavaquinho, 1976 - Foto Agência O Globo

Meu pai raramente se enfurecia. Mas quando acontecia… Lembro do dia em que ousei falar mal de uma canção e de seu intérprete, que tocava no rádio do táxi que nos levava para casa. “O sol há de brilhar mais uma vez/ A luz há de queimar os corações…”, diziam os versos, entoados por uma voz encharcada de álcool e cigarro. Bastou um “mas que coisa chata, hein?” proferido por mim para Seu Osvaldo me encarar e falar: “Outra gracinha você vai embora para casa a pé!”

Sinceramente? Foi merecido. Nelson Antonio da Silva, ou melhor, Nelson Cavaquinho, cuja passagem completou quatro décadas em 1986, é um patrimônio incontestável na música brasileira. E uma das principais qualidades –sobre as quais falarei melhor no parágrafo seguinte– está justamente nesse estilo peculiar de interpretação, que traziam em sua maioria letras sobre amor e desilusão. Há de se prestar atenção também na maneira com a qual Nelson tocava o violão (sim, embora tivesse o sobrenome Cavaquinho, era no violão onde se destacava). Ele “cutucava” as cordas com o dedo indicador e o polegar, criando um som que era só seu.

Nelson Cavaquinho nasceu na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, mas ainda na infância mudou-se com a família para a Lapa, bairro que até hoje é sinônimo de boemia. Foi ali, em meio à trepidante vida noturna do bairro, que equilibrou o emprego de eletricista com o de compositor. Seus primeiros sambas foram gravados por gente de peso como Dalva de Oliveira (Palhaço) e Elizeth Cardoso (O Meu Pecado). No início dos anos 1950 inicia uma parceria vitoriosa com Guilherme de Brito (1922-2006) que renderia, entre outros clássicos A Flor e o Espinho –cujos versos iniciais, “tire seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor…” são de autoria de Brito (muita gente acha que são de Nelson que, espertamente, nunca desmentiu essa teoria). 

A exemplo de seus pares, Nelson Cavaquinho passou por um período de ostracismo no final dos anos 1950, mesmo porque era mais conhecido como compositor e ainda assim por seus pares. Em 1964, no entanto, Nara Leão gravou Luz Negra, o que reacendeu seu nome para outras intérpretes. Nelson posteriormente seria gravado por Clara Nunes (a minha predileta), Elis Regina, Beth Carvalho e muitas outras. Em 1970, finalmente lançou seu primeiro disco solo.

Sou apaixonado pela interpretação de Nelson, mais ainda pelas suas letras. São impregnadas de melancolia, ainda que exista uma crença na justiça –caso de Juízo Final, a tal canção que era predileta do meu pai. Elas tratam de temas profundos –morte, rejeição, pobreza, dores de amores–, contadas de modo simples e acessível. E a voz, meu Deus, a voz… Seu Osvaldo tinha razão. Não se deve falar mal de Nelson Cavaquinho ou da sua forma de interpretação.