Da TV Tupi ao streaming: a rota de Mu Carvalho
A Cor do Som - Foto Felipe Oliveira/ Divulgação

 A emissora de TV Tupi (sim, sou vintage o suficiente para ter assistido à TV Tupi) possuía um programa chamado Som Rock. Uma espécie de MTV dos anos 1970, ao lado do Rock Concert, da TV Globo, ele nos municiou com o que havia de melhor do rock desse período –clipes promocionais de Queen, Chicago, Led Zeppelin e muitos outros. Foi ali que assisti, inicialmente a contragosto (afinal, era roqueiro raiz) a um quinteto brasileiro chamado A Cor do Som. O preconceito, claro, se dissipou logo após escutar/assistir às três músicas que eles apresentaram: Beleza Pura, de Caetano Veloso; Suingue Menina, do tecladista Mu Carvalho e Moraes Moreira, e Frutificar, de Mu. Essa última, instrumental, tinha um quê de rock progressivo, gênero pelo qual eu tinha me enamorado meses atrás.

A Cor do Som participaria muito da minha vida nos anos seguintes. Criada como grupo paralelo d’Os Novos Baianos, principal combo de rock e MPB de todos os tempos, eles iriam inicialmente um combo de música instrumental. Os vocais foram acrescidos a partir do terceiro disco, o tal Frutificar (1980), que colocaram o quinteto na prateleira do pop nacional. O sucesso fez com que pessoas como eu (traduzindo: pobre de marré de ci) pudessem assisti-los em shows gratuitos na praia ou em clubes de Santos, onde tocavam a preços camaradas.

Eu era aficionado pelo estilo do conjunto, que fazia uma combinação incomum de rock e ritmos regionais (Armandinho, o guitarrista, tocava com guitarra baiana, típica dos trios elétricos do carnaval local). Uniam Beatles ao frevo, forró ao rock pesado, colocam na receita composições de Ernesto Nazareth (1863-1934), mestre do maxixe e do choro. Mu Carvalho trazia em suas composições a influência da música erudita e do rock progressivo, que o preparam para uma vida pós-Cor do Som (embora eles tenham voltado recentemente). Ele passou a compor trilhas sonoras incidentais de novelas da Rede Globo, função que desempenhou até 2021.

A versatilidade do pianista e tecladista se faz presente em O Mundo é Meu Jardim, seu mais recente disco solo, que chegou às plataformas de streaming no final do ano passado. São nove canções nas vozes de onze cantoras, que vai da celebrada Zizi Possi e das talentosas Monique Kessous e Vanessa Moreno às jovens Brenda Luce, Fernanda Francis e Mariana Elis. É um disco de pop refinado, onde Mu tem à sua disposição o melhor do instrumental brasileiro: os baixistas Alberto Continentino e Jorge Helder, os bateristas Marcelo Costa e Jurim Moreira, os guitarristas Dadi Carvalho (irmão de Mu e baixista celebrado) e Ricardo Silveira. Um disco que pede uma audição cuidadosa em tempos de velocidade.