O apartamento da Nara
Nara Leão, 1958 - Foto Reprodução

Imagine você, leitor, um apartamento de 250 metros quadrados na Avenida Atlântica, janelas amplas voltadas para o mar de Copacabana, em um elegante edifício chamado Champs Elysées. É fácil supor que um lugar assim teria sido lar de figuras espalhafatosas, moldadas para o brilho permanente. Mas não. Quem cresceu ali foi Nara Leão.

Há algo de deliciosamente contraditório nisso. Um endereço que hoje figura entre os metros quadrados mais caros do país serviu, nos anos finais da década de 1950, como ponto de encontro de jovens músicos, violões apoiados no sofá, letras ainda em estado bruto, harmonias ensaiadas com a naturalidade de quem não sabe que está fazendo história. O luxo estava ali, o mármore, a vista do segundo andar para o mar, o espaço generoso da sala, com seus quinze metros de largura, mas passava quase despercebido. O centro gravitacional do apartamento não era o oceano nem o prédio elegante, e sim a sala onde se tocava e se escutava.

Segundo Roberto Menescal, presença constante naquele convívio, a turma de amigos se dividia entre os que compunham e ensaiavam, ocupando o sofá próximo à janela, enquanto os demais se espalhavam em colóquios pela antesala. Em depoimento no documentário O Canto Livre de Nara Leão”, da Globoplay, Menescal recorda que os encontros eram anunciados de baixo para cima: os amigos que passavam pela calçada chamavam, assoviavam e perguntavam quem já estava reunido no apartamento. Conta, entre sorrisos, que quase não entendia o que João Gilberto dizia quando chamava de baixo, não por falta de interesse, mas porque João falava tão baixinho que, já ali, ensaiava o tom novo e suave daquele ritmo que ainda não tinha nome.

Foi ali que a bossa nova começou a ganhar forma, não como movimento organizado, mas como convivência. Tom Jobim, João Gilberto, Sérgio Mendes, Edu Lobo, João Donato, Carlos Lyra, Roberto Menescal iam e vinham, afinavam ideias, erravam acordes, repetiam frases musicais até que algo soasse novo, simples e preciso. Nara, ainda muito jovem, não era apenas a anfitriã. Era ouvido atento, critério estético, presença crítica. Seu gosto, naquele momento mais do que sua voz, ajudava a separar o que ficava do que se perdia.

É curioso pensar que um gênero musical associado à informalidade, à praia, ao canto quase sussurrado, tenha nascido em um apartamento que hoje simboliza exclusividade e alto valor imobiliário. Mas talvez seja justamente isso que revele algo essencial sobre Nara Leão. Ela sempre transitou entre mundos, entre o conforto e a contestação, o ambiente protegido e a inquietação política, a delicadeza musical e a firmeza de posição. Não por acaso, anos depois, aquela jovem que preferia ouvir antes de cantar se tornaria uma das vozes mais conscientes de sua geração, rompendo com a zona de conforto da própria bossa nova, aproximando-se do samba de morro, da canção de protesto e de compositores marginalizados. A mesma sensibilidade que organizava silenciosamente uma sala cheia de músicos seria, mais tarde, a que escolheria repertórios, causas e alianças com precisão rara.

O Champs Elysées, com seu nome emprestado de Paris, acabou abrigando algo profundamente carioca e brasileiro. Entre aquelas paredes, a música desceu do pedestal, sentou no chão da sala e aprendeu a conversar baixo. E Nara, sem alarde, foi o eixo silencioso dessa cena, a menina que escutava antes de cantar e que transformou um endereço improvável no berço de uma revolução musical tão discreta quanto duradoura.