Celtic Frost: A banda suíça que mudou o cenário da música extrema brasileira
Celtic Frost, 1984 - Foto Divulgação

Pense numa conexão entre Brasil e Suíça — e não, não vale colonos do sul nem o nosso café exportado para acompanhar o chocolate suíço. Há algo mais simples, quase primitivo: seja em Minas Gerais ou em Zurique, há sempre um adolescente sendo rebelde.

Em 1985, Tom G. Warrior (nome artístico de Thomas Gabriel Fischer) pintava o rosto para uma sessão de fotos com elmo, escudos e espadas. O motivo: promover seu mais recente álbum, Morbid Tales, lançado naquele ano pelo seu novo projeto musical, Celtic Frost. As imagens foram feitas no “Grave Hill bunker”, um porão onde ocorriam as sessões de composição e ensaio da banda (co-produzida pelo baixista Martin Eric “Ain”).

Naquela época, o Frost renascia das cinzas do projeto anterior chamado Hellhammer, com um som mais “produzido”, embora ainda cru. Entre gravações e ensaios, em algum momento chegou para Warrior um telegrama vindo do Brasil — uma carta manuscrita, enrolada com uma fita cassete e um desenho profano: um demônio gigante destruindo uma igreja, sob o nome do grupo Sepultura. A história é parte da memória oral do underground — Max e Iggor Cavalera trocavam correspondência com bandas européias, segundo seus próprios relatos.

Referência x Influência

Em entrevista à Hysteria Magazine, Max Cavalera contou que sempre foi um grande fã das bandas “oldschool”, como Celtic Frost e Hellhammer. Já à Loudersound, ele afirmou que ouvia muito Venom, Kreator, Destruction e Bathory, citando o Celtic Frost também como uma das maiores influências sonoras do início do Sepultura.

Apesar das temperaturas muito mais altas no Brasil, a cena de metal extremo brasileira era tão precária quanto em Zurique. Os irmãos Max e Iggor Cavalera eram verdadeiros “pen-pals” da cena global: enviavam fitas, faziam camisetas artesanais, trocavam cartas com bandas mundo afora.

Em entrevista à TIDAL Magazine, Iggor Cavalera relembrou que eles roubavam microfones de outras pessoas para conseguir tocar e faziam cintos de balas usando pilhas AA. Ele também contou que um dos panfletos desenhados por ele e Max acabou virando tatuagem em Trey Azagthoth, guitarrista do Morbid Angel.

Se na Suíça a cena pesada resumia-se basicamente ao Celtic Frost e ao Coroner, no Brasil florescia um cenário mais plural — impulsionado por essa “exportação” cultural dos irmãos Cavalera, que apoiaram bandas como Sarcófago (cujo vocalista, Wagner Lamounier, integrou uma das primeiras formações do Sepultura), Chakal, Mutilator e Holocausto. Todas foram lançadas pelo selo Cogumelo Records, responsável também pela coletânea Warfare Noise (1986), que refletia a sonoridade inspirada no Frost.

O som do Celtic Frost era minimalista: notas isoladas e graves, bateria veloz e vocais intensos — inspirados em temas como guerreiros bárbaros, reis mortos e o oculto, com influências de Robert E. Howard (Conan, o Bárbaro) e H. P. Lovecraft. Max Cavalera, em entrevista à revista Revolver, admitiu que ainda hoje “rouba” ideias do Celtic Frost — uma homenagem sincera à referência que moldou o início do metal extremo no Brasil.

Quase igual ou melhor…

O fato é que essa influência atravessou oceanos. As letras do Sepultura eram colagens de palavras em inglês e ideias vindas diretamente das músicas do Frost — o álbum Morbid Visions (1986) tomou parte do nome de Morbid Tales e da faixa Visions of Mortality.

Antes do Frost, com o Hellhammer, já existiam faixas como Triumph of Death, Crucifixion e Revelations of Doom. Não é difícil perceber a semelhança com músicas do Sepultura  como Warriors of Death, Troops of Doom e outra igualmente chamada Crucifixion.

Para muitos, isso poderia soar como apropriação criativa; mas Tom G. Warrior via com admiração. Ele e os irmãos Cavalera mantiveram amizade e se elogiam mutuamente em entrevistas até hoje. Ambos, porém, evoluíram seus sons de maneira paralela — especialmente quando incorporaram elementos eletrônicos (como One In Their Pride (Porthole Mix) do Celtic Frost e Chaos B.C. do Sepultura).

Em 1996, as duas bandas se encontraram em uma jam da música Procreation (of the Wicked) — faixa do primeiro álbum do Celtic Frost, que o Sepultura já havia homenageado em um cover anterior. Durante o vídeo da apresentação, transmitido pela MTV, Tom G. Warrior chegou a dizer, com bom humor: “Essa versão é melhor do que a nossa.”

Quarenta anos depois da troca de cartas, que mudou a história da música extrema, Warrior voltou ao Brasil com o Triptykon, tocando apenas a fase do Celtic Frost no Setembro Negro Festival, de 2025, mas mantendo a alianca suíça e brasileira mais viva do que nunca.