Uma vez eu ouvi essa frase em uma reunião com outros amigos da música: “quanto mais tecnologia a gente tem, mais a gente precisa estudar para não ser engolido por ela”. Quer verdade mais verdadeira do que essa? E principalmente na indústria da música? Sempre que lembro dessa frase, lembro do exato momento em que vi pela primeira vez a tecnologia do MP3, em 1997…
Tenho visto que estamos saindo daquela lógica racional, em que o que importava era a força do talento, o “músculo da voz”. Agora, a gente entrou de cabeça na Era da Inteligência. O grande diferencial competitivo mudou. A inteligência artificial agora é uma ferramenta de custo marginal (quase) zero. Eu costumo comparar essa transição com o que aconteceu quando saímos do vinil para o streaming. A música deixou de ser um objeto físico e virou uma utilidade onipresente.
O desafio para quem faz negócio é: se a inteligência está em todo lugar e custa quase nada, onde vai estar o valor real do nosso trabalho? O artista que estuda profundamente a sua arte e o seu mercado deve usar a IA para alavancar o que já tem de bom — e terá um futuro melhor garantido. Já aquele que busca o “milagre” do curso que promete “táticas secretas” acaba virando refém de uma plataforma que muda as regras do jogo a cada poucos meses — ou, às vezes, até dias.
Uma coisa é usar um plugin para dar aquele tapa na mixagem ou organizar o catálogo. Outra, bem diferente, é querer que a máquina “sinta” a canção. Uma IA pode até replicar a estrutura de um clássico do Oasis, mas ela não sabe o que é a frustração ou a euforia que faz uma música virar um hino.
E, para ajudar nesse caos organizado, há os tais cursos que prometem “a fórmula para crescer sua música em 30 dias” no streaming — o que é uma mentira deslavada. É o “teatro do sucesso”. Eles pegam uma pequena probabilidade estatística das plataformas e tentam vender como se fosse regra. É a mesma armadilha da “terceirização cognitiva”: o sujeito acha que vai apertar um botão e o algoritmo vai fazer o trabalho que o talento e o planejamento não fizeram.
No mercado da música, o público não é bobo. Você pode até “bombar” um número artificialmente usando essas táticas de curto prazo, mas não constrói uma base de fãs. É um crescimento oco. Se o artista não tem profundidade, vira um “hit de algoritmo” que ninguém lembra o nome num futuro muito próximo.
Se novos artistas e executivos começarem a delegar toda a parte criativa e estratégica ao algoritmo, teremos um mercado tecnicamente impecável, mas espiritualmente vazio. O valor de um líder ou de um artista está justamente no que a máquina não consegue calcular: o “feeling”, o erro que vira acerto, a conexão humana.
Meu veredito é simples: vou usar a IA para ser 50% mais rápido e eficiente nos meus projetos, mas não vou deixar que ela pilote o barco sozinha. O segredo do sucesso no mercado brasileiro, que é tão vibrante e emocional, será justamente manter o “humano no controle”.
A gente usa a inteligência da máquina. Mas a sabedoria… ah, essa continua sendo nossa.