A Arte Milenar de Gravar Coletâneas em Fita Cassete

A Arte Milenar de Gravar Coletâneas em Fita Cassete

Foto: Elijah O’Donnell / Pexels

Antes de existir o Spotify havia um ritual que envolvia fita cassete, gravador de dois decks (para quem tinha dinheiro) ou o rádio com o dedo afiado para apertar REC na hora certa. Esses eram os embriões das playlists.

Fazer uma coletânea era uma arte e não é força de expressão. Tinha lado A, lado B, espaço limitado (60 ou 90 minutos) e, portanto, escolhas difíceis como qual música ficava de fora, qual abria, qual encerrava. Às vezes o corte era brutal, pois era necessário deixar aquele refrão pela metade porque a fita acabava. Lembro que, certa vez, precisei sacrificar a interminável Faroeste Caboclo, da Legião Urbana, para caber o resto da seleção – frustração beirando a uma cicatriz musical.

Havia ainda todo um cuidado artesanal. Escrever à mão o nome das músicas no encarte, colar etiquetas direitinho. Parte do encanto estava no gesto de presentear, de demonstrar atenção e afeto. Muitas vezes a seleção era uma espécie de dedicatória secreta, um recado que nós mesmos, em pessoa, não tínhamos coragem de dizer. Com o tempo, virei um especialista nessa arte, adaptando o repertório conforme o gosto da cliente.

Gravar músicas da rádio era outro exercício de paciência – e também de caça. Era a única forma de ter acesso a certos lançamentos que ainda não estavam a venda nas melhores lojas do ramo. A gente ficava grudado nos programas de rádio, esperando aquele momento em que a faixa estreava para apertar o REC e garantir um registro inédito.

Muitas vezes, porém, lá pelo fim, vinha o locutor atropelando a música com anúncios da estação, estragando a gravação.

Em alguns lugares havia ainda uma moda curiosa. As próprias lojas de disco montavam suas coletâneas em cassete e vendiam como produto pronto. Eram seleções improvisadas, mas funcionavam como uma espécie de curadoria local, feita com muito improviso. As capas eram simples, com a lista das músicas datilografada em papel sulfite, colocada atrás do estojo transparente. Era como se fazia para ampliar o portfólio de produtos.

O mercado, claro, não perdeu tempo. Logo surgiram as coletâneas em vinil – Hit Makers, Hit Parade e seus volumes intermináveis – anunciadas em horário nobre na TV. Eram as playlists oficiais de uma era pré-Spotify, empacotadas em LPs que chegavam às lojas e até aos supermercados. No fundo, funcionavam também como um modo de orientar e domesticar o gosto do consumidor, transformando a seleção caseira em produto de massa.

Hoje, com o streaming e seu catálogo infinito, é difícil explicar o que significava cada fita gravada. Talvez por isso ainda guardo meu velho toca-fitas como um souvenir de uma época em que ouvir música era também um exercício de paciência, invenção e desejo.

Quem nunca viveu essa época pode pensar que exagero. Por isso, segue um manual rápido, um guia de bolso, de como gravar sua própria coletânea em fita cassete.

Arrume um duplo deck. Não é um app. É um aparelho gigante, pesado e cheio de botões.

Compre uma fita cassete virgem. Vem com 60 ou 90 minutos. Não importa muito, pois você vai sempre ter que fazer escolhas crucias e deixar alguma música escolhida de fora.

Coloque a fita original no Deck A e a virgem no Deck B. Já dá pra se sentir um engenheiro de som. A fita original, é bom lembrar, é aquela da qual vc pretende extrair a música que pretende gravar.

Aperte REC + PLAY ao mesmo tempo. Isso exige coordenação motora — não adianta encostar de leve.

Espere. É preciso ter paciência e esperar a música inteira tocar para que seja registrada na fita virgem. Não tem download em 3 segundos.

Caça ao lançamento. Fique atento no rádio, se tem um programa favorito. Dedo a postos no REC, torcendo para o apresentador não cortar o refrão anunciando alguma coisa.

No encarte. Bic, letra caprichada, anote as músicas ou qualquer outra coisa que quiser e cole etiquetas.