Acabou, chorare: disco clássico dos Novos Baianos sai em vinil
A história é tão boa que parece anedota

Novos Baianos. Divulgação
A história é tão boa que parece anedota. Certo dia – ou noite, cada um me conta esse caso do seu jeito– um senhor toca a campainha da cobertura no bairro de Botafogo (Rio), para onde os Novos Baianos se mudaram no início dos anos 1970. Dadi, o baixista, confere o sujeito pelo olho mágico e acha que se tratava de um policial. “Ele usava terno, não tinha nada a ver com a gente”, confessa. O “polícia” era, na verdade, João Gilberto, pai da bossa nova, que se encantou com a música daquele bando de cabeludos.
Existem várias histórias sobre esse encontro. A minha predileta, contudo, me foi contada por Marília Aguiar, a Marilinha, então mulher de Paulinho Boca de Cantor. Ela disse que João se sentou na cama, pegou o violão e passou a desovar uma série de sambas do início do século XX. Vez ou outra, pedia para algum dos rapazes o acompanhar no canto. E decretou: “Vocês precisam olhar para dentro de vocês.”
O veredito de João Gilberto mudou os rumos daquele combo de malucos, surgido na cidade de Salvador, a partir do encontro do letrista Luiz Galvão com o compositor, violonista e cantor Moraes Moreira, no final dos anos 1960. Eles são base, o núcleo, que depois agregaria o crooner de orquestra Paulinho Boca de Cantor, a carioca Bernadete Dinorah (depois Baby Consuelo e hoje Baby do Brasil) e Pepeu Gomes, virtuose da guitarra que acompanhou Gilberto Gil e Caetano Veloso no show/disco Barra 69. O grupo ganhou o nome que o tornaria famoso quando se apresentou num festival de música da TV Record, em 1969. “Chama aí esses novos baianos!” disse então o produtor do especial, a fim de avisar que estava tudo pronto para a banda entrar.
Os Novos Baianos pré-João Gilberto eram uma banda de rock, como se notava em seu disco de estreia, Ferro na Boneca (1970). “É ferro na boneca/ É pluft pluft pluft pluft/ É no gogó, neném…” O grupo, em sua temporada carioca, ganhou outros dois integrantes fundamentais (vou poupar a todos da lista de percussionistas e dançarinos que faziam parte da família): Jorge Gomes, baterista e bandolinista, irmão de Pepeu, e o carioca Dadi, baixista recrutado na praia por Baby e por Marilinha. É esta formação, que naquela altura migrou para um sítio em Jacarepaguá, que gravou o clássico “Acabou Chorare”, que ganhou um relacionamento em vinil pela gravadora Três Selos/Rocinante.
Ali estão as principais qualidades do grupo, aprimoradas depois dos encontros com João Gilberto. O resgate do samba em Brasil Pandeiro, de Assis Valente (1911-1958), que Carmen Miranda teve o desplante de recusar. A brejeirice de Baby Consuelo em Tinindo Trincando e A Menina Dança (não conheço um sujeito daquela época que não tenha sonhado com um amasso de Baby, com cabelo embaixo da axila e tudo…). A voz bem colocada de Paulinho Boca de Cantor na sacana Swing do Campo Grande e Mistério do Planeta. A parceria de Moreira e Galvão, então, lembrava as tabelinhas entre Zico e Doval no Flamengo dos anos 70. Dali saíram os dois golaços de Acabou Chorare: a faixa-título, joão-gilbertiana até na inspiração (teria nascido de uma frase de Bebel Gilberto, filha do pai da bossa nova) e Preta Pretinha – que de tão boa aparece no disco duas vezes. E quando o grupo se embrenha demais pelos caminhos da MPB, a guitarra de Pepeu Gomes lembra que os Novos Baianos também são rock. Ele não apenas bota fogo em Tinindo Trincando, Mistério do Planeta e A Menina Dança, como arrebenta na instrumental Um Bilhete para Didi, um choro que se transforma num rock de arrepiar. Besta é Tu, , então, é um manifesto anti-caretice que só poderia ter nascido entre a comunidade dos Novos Baianos.
Hoje em dia, quando ouço qualquer grupo brasileiro anunciar a “original” mistura de rock e ritmos regionais, penso na minha expressão de encanto ao ouvir Acabou Chorare pela primeira vez. E me pergunto: será que os trabalhos ditos “originais” e “revolucionários” casam harmonia, melodia, letra e potência sonora com a mesma habilidade daqueles cabeludos? E será que daqui a alguns anos o disco “original” e “revolucionário” irá soar tão gostoso como soa hoje Acabou Chorare? Posto isso, sinto orgulho em dizer que a tradição continua. Quando meu filho Noel, quando tinha seis anos (hoje tem 26), quer cantar para se animar, as opções quase sempre são Brasil Pandeiro, A Menina Dança e outras pérolas deste LP.