Clara Nunes
Terreiro de Luz

Clara Nunes - Foto Divulgação Wilton Montenegro
Dados Biográficos
Nascida em 1942, em Paraopeba, e crescida entre as ladeiras e rezas de Minas Gerais, Clara Nunes chegou ao mundo já com missão: transformar a própria voz em rio, rito e resistência. Seu timbre carregava um Brasil profundo — de congadas, de tambores, de fé que atravessa séculos — e, por isso, quando Clara cantava, o país inteiro parecia se reconhecer no espelho.
Cantora, compositora, poeta do cotidiano e do sagrado, Clara Nunes foi além da música: foi uma resposta melódica ao preconceito, à desigualdade e ao apagamento das matrizes africanas que sustentam a cultura brasileira. No auge dos anos 1970, quando o país enfrentava censuras e silenciamentos, sua obra virou ponte e afirmação. Clara fez do palco um altar político, mas com doçura, coragem e espiritualidade. “O povo onde eu moro é simples, mas sabe amar”, lembrava, mostrando que sua arte nascia da rua, da roda e da vida real. E, como dizia em verso e gesto, “na palma da mão eu carrego o meu samba” – era ali que carregava também a história de um Brasil miscigenado, profundo, e que ela tanto defendia.
Ao longo da mesma década e início dos anos 1980, Clara lançou sucessos que ecoam até hoje. O Canto das Três Raças virou hino, não apenas pela beleza melódica, mas por ser, até hoje, uma das mais contundentes denúncias musicais do racismo estrutural. Conto de Areia abriu caminhos para a mulher negra e para a religiosidade afro-brasileira dentro da grande mídia, quebrando tabus e elevando o respeito pelo candomblé e pela umbanda. Ijexá (Filhos de Gandhi) trouxe ancestralidade para a vitrine nacional. E Portela na Avenida eternizou sua devoção azul e branca, revelando um Brasil que dança, canta e resiste.
Clara foi a primeira cantora brasileira a alcançar a marca de 100 mil cópias de discos vendidos — um feito histórico que mostrou que o samba, sim, podia ocupar o mainstream com dignidade e grandeza. Também abriu portas internacionais – com shows em Cannes, na África e com o sucesso de um álbum lançado na Europa em 1974 – para que outras vozes femininas da música popular brasileira encontrassem espaço, respeito e visão de futuro. Sua presença no palco, vestida de branco, banhada de contas, girando como quem risca o chão com fé, transformou o imaginário do país.
E até hoje, quatro décadas após sua trágica e precoce partida aos 40 anos, em 2 de abril de 1983, após um choque anafilático por conta da sedação de uma cirurgia para remover varizes, Clara segue viva na estética afro-brasileira que voltou à cena com força; no resgate da ancestralidade como forma de identidade; nas novas cantoras que assumem o samba como missão; e nos movimentos culturais que reivindicam raízes, tambores e pertencimento. Porque Clara não apenas cantou. Ela clareou. E sua claridade permanece iluminando.