Dona Ivone Lara

Doçura Ancestral

Dona Ivone Lara

Dona Ivone Lara - Divulgação

Nome Artístico
Dona Ivone Lara
Nome verdadeiro
Yvonne Lara da Costa
Data de nascimento
13 de abril de 1921
Local de nascimento
Botafogo, Rio de Janeiro

Dados Biográficos

Era como um sopro de vento doce: uma voz que transformou a dor em reza, o afeto em melodia e a negritude feminina em monumento. Quando Dona Ivone Lara cantava, o mundo parecia respirar mais fundo — como se suas notas espalhassem cura, memória e chão.

Nascida Yvone Lara da Costa, em 1921, ela não veio ao mundo apenas para cantar, mas sim para reivindicar espaço, reinventar tradição e inscrever seu nome entre os eternos do samba. Enfermeira, assistente social, poeta na alma e compositora de vocação divina, foi a primeira mulher a assinar um samba-enredo na história das escolas de samba. E fez isso antes que o Brasil aprendesse a reconhecer a potência das vozes femininas nos bastidores da música.

Era gigante, sem levantar a voz. Era política, sem precisar de palanque. Seu manifesto estava no gesto, na postura, na teimosia em existir como artista completa em um tempo que dizia “não”. E ela respondia com música. “Acreditar… eu não!”, repetia o povo, ecoando seu samba que virou filosofia de vida.

A obra de Ivone Lara molda até hoje o arcabouço emocional do samba. Sonho Meu é colo e memória compartilhada entre gerações. Alguém Me Avisou tornou-se hino de emancipação feminina e resistência negra, cantada como aviso, oração e celebração: ninguém segura o destino de quem nasceu para brilhar.

Sua musicalidade — suave como renda, forte como tambor — pavimentou o caminho para que outras mulheres ocupassem a composição com coragem e delicadeza. Dona Ivone provou que a doçura também é arma. Que o lirismo também é política. Que o samba, quando passa por mãos ancestrais, ganha contornos eternos.

Foi uma figura lendária na escola de samba Império Serrano: a primeira mulher a compor um samba-enredo e integrar a ala de compositores da escola em 1965, com Os Cinco Bailes da História do Rio. Ela era a “Dama do Samba” e a “Primeira Dama da Serrinha” – profundamente ligada à escola, que a homenageou no Carnaval de 2012 com o enredo Dona Ivone Lara: o Enredo do Meu Samba, e realizou seu velório em sua quadra em 2018.

Até hoje, no entanto, seus versos pairam sobre rodas de samba, rodas de conversa, rodas de cura. Influencia novas gerações de sambistas, intérpretes, estudiosos da cultura negra e mulheres que encontram na sua história o espelho da própria força. Em cada terreiro, em cada palco, em cada esquina onde o samba nasce espontâneo, sua presença segue firme — guiando, inspirando, ensinando. Porque Dona Ivone não é passado, é fundamento.