A edição 2026 do estudo “Por Elas Que Fazem a Música”, lançado pela União Brasileira de Compositores (UBC), traz um levantamento digital com foco em assédio, discriminação e violência no mercado da música, com a participação de mais de 280 mulheres profissionais do setor.
As respostas, coletadas no primeiro trimestre de 2026, indicam a permanência de práticas misóginas e desigualdades que afetam diretamente a atuação e a segurança das mulheres: 65% relataram já ter vivido assédio no contexto profissional; com destaque para assédio sexual (74%), assédio verbal (63%) e assédio moral (56%); e 35% afirmaram ter enfrentado algum tipo de violência, sobretudo psicológica (72%), além de toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%).
Os relatos também evidenciam padrões de responsabilização e impactos na trajetória profissional. Para 96% das respondentes, homens foram os autores das situações vividas; 75% apontaram impacto emocional e metade (50%) disse ter se afastado de pessoas ou ambientes de trabalho. Ao mesmo tempo, 49% afirmaram não ter buscado apoio ou não ter compartilhado o ocorrido, sinalizando barreiras para denúncia e acolhimento.
No recorte de discriminação, 63% disseram ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, 59% receberam comentários que desqualificaram sua competência, 57% sentiram cobrança maior para provar capacidade e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados, com reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%), passagem de som (27%) e processos de contratação e seleção de equipe (26%) como os ambientes mais associados a preconceitos e barreiras.
A pesquisa também destaca o impacto da maternidade: 60% das mulheres com filhos afirmam que a carreira foi afetada, principalmente por menos convites e oportunidades, menos viagens/turnês e comentários preconceituosos sobre dedicação à maternidade.
Entre as participantes, 45% se identificam como profissionais do mercado da música, 25% como compositoras, 22% como intérpretes e 8% como musicistas executantes; 37% atuam há 21 anos ou mais no setor. Em relação à renda, 55% têm a música como principal fonte de sustento, enquanto 29% não dependem da música como renda principal e 16% afirmam ter renda parcialmente vinculada à atividade musical.
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Os relatos coletados pela pesquisa ilustram a gravidade da situação. Uma profissional, que preferiu manter o anonimato, contou:
“Um produtor de um grande festival do Nordeste, num comprimento passou a mão com vontade na minha cintura e subiu até o seio. Na hora fiquei sem reação. Meu companheiro viu a cena e ficou perplexo. Não me manifestei para não fechar uma porta, para que no momento oportuno, eu use a minha voz no palco.”
Já a letrista Iara Ferreira relatou:
“Um músico 30 anos mais velho que eu, que eu admirava e super celebrado no meio, me convidou para compormos juntos. Quando cheguei a sua casa, havia uma cena preparada para um encontro amoroso (vinho, flores…) e ele se ‘declarou’ dizendo que ele mesmo já tinha feito a letra que tinha me pedido pra fazer, e era dedicada a mim. Me senti completamente desrespeitada e humilhada como profissional. Passei um bom tempo duvidando de minha capacidade, pensando que os homens que se aproximavam de mim dizendo que gostavam de meu trabalho, na verdade o faziam com segundas intenções. Essa foi apenas uma de várias situações ao longo desses 15 anos trabalhando como letrista.”