O batuque e o rei: o dia histórico em que Michael Jackson descobriu o Olodum
Michael Jackson e Olodum (Reprodução)

O sol ardia sobre o casario colorido do Pelourinho quando o maior popstar do planeta desembarcou ali, em fevereiro de 1996. Michael Jackson — já uma entidade da cultura mundial — buscava mais do que um cenário exótico para seu videoclipe They Don’t Care About Us: queria verdade. Encontrou o Olodum, encontrou o Brasil, e, naquele compasso entre o tambor e o coração, nasceu uma das fusões mais poderosas da música moderna.

O Olodum, símbolo de resistência negra e orgulho afro-baiano, transformou a percussão em linguagem universal. E foi exatamente isso que encantou o rei do pop. A energia dos tambores, o batuque que ecoava como reza e protesto, o coletivo que transformava dor em festa — tudo aquilo soava como algo que o próprio Michael Jackson vinha tentando traduzir em sua arte: a luta contra a injustiça, o preconceito e a exclusão – e que também dava significado à aquela canção.

O encontro, arquitetado por Spike Lee, foi um choque de mundos que se reconheceram. O Olodum já era gigante na Bahia, mas, com o clipe, foi catapultado para o planeta. Ganhou visibilidade, contratos internacionais, e o status de embaixador da cultura afro-brasileira. De repente, o som que ecoava das ladeiras do Pelourinho ganhava a MTV e telões de estádios e em 2023 alcançou 1 bilhão de visualizações no YouTube.

Para Michael, aquele mergulho foi igualmente transformador. O cantor, que vivia um momento de desgaste público, encontrou no Brasil uma forma de relembrar a pureza da arte como força coletiva. A gravação, feita entre Salvador e a favela Santa Marta, no Rio, o marcou profundamente. Tanto que o rei do pop chorou durante as filmagens. Ficou impressionado com a receptividade do povo e a força dos ritmos de matriz africana. “Era como estar no coração da música”, disse a um amigo próximo.

O som que uniu mundos
They Don’t Care About Us era, em essência, um grito político. E o Olodum amplificou esse efeito com o toque dos tambores baianos, que deu corpo ao protesto de Michael — um homem negro que se via questionado por um mundo que o idolatrava, mas não o compreendia. O clipe, com crianças sorrindo entre becos, mulheres dançando nas ruas e músicos batendo com a alma, levou a mensagem da música a um novo nível.

O impacto foi imenso. E continua sendo 30 anos depois. A canção, que havia enfrentado críticas e censuras por sua contundência, ganhou um novo significado ao ser filmada em um país que conhecia de perto o peso da desigualdade e da resistência. “O Olodum não só tocou com Michael — tocou por Michael”, diria anos depois o mestre percussionista, Neguinho do Samba, que dirigiu o grupo clipe.

O Brasil de Michael
Não era, porém, a primeira vez que o artista se encantava pelo Brasil. Michael visitou o país algumas vezes, manteve amizades por aqui e, nos bastidores, se falava de sua curiosa admiração por Xuxa Meneghel — que chegou a visitá-lo nos Estados Unidos e a ser convidada para o rancho Neverland. A apresentadora, então no auge, foi uma das poucas brasileiras a adentrar o universo do cantor, e a amizade, cercada de especulações, representava o tipo de afeto doce e improvável que o artista buscava longe dos holofotes.
O Brasil, por sua vez, com sua mistura de fé, sensualidade e dor, parecia falar uma língua que Michael entendia sem tradução. O batuque, o corpo, a cor, o suor — tudo aquilo era o que ele sempre quis transmitir com seus passos e sua música. E conseguiu: o lendário vídeo ainda é lembrado pelas imagens icônicas do rei do pop no Pelourinho. Tanto que turistas do mundo inteiro ainda sobem as mesmas escadarias pintadas de azul e amarelo, posam ao lado dos tambores do Olodum, e sentem a vibração daquele dia em que o astro americano e o coração da Bahia bateram juntos.

O Olodum ganhou o mundo. Michael, em troca, ganhou um pedaço da alma brasileira. E até hoje não é exagero falar que quando os tambores começam a soar, ecoando pela tarde quente de Salvador, parece possível ouvir, no meio do batuque, a voz de Michael sussurrando — entre versos e beats — que a música, afinal, é o idioma que cura todos os abismos.