Nos anos 1970, o Brasil vivia tempos duros. O medo e a censura ditavam o tom, e a palavra “liberdade” era quase um sussurro. Nesse cenário, Ney Matogrosso apareceu todo pintado, brilhante e absolutamente livre. Em meio à rigidez daquele tempo, ele dançava. Enquanto o país reprimia, ele revelava.

Ney não precisava fazer discursos: bastava existir. Seu corpo, sua voz e seu olhar eram suficientes para desmontar a lógica da ordem. Nos palcos dos Secos & Molhados (banda que integrava com João Ricardo e Gérson Conrad), ele transformou “escândalo” em poesia.

O corpo que falava o que o país calava

Enquanto tantos artistas se escondiam nas entrelinhas, Ney transformava o próprio corpo em poesia explícita. Misturava teatro, carnaval, ritual e rock. Sua androginia não era disfarce, era linguagem. E, de repente, o público se via diante de algo novo: um homem que podia ser muitas coisas ao mesmo tempo. Era provocação, sim. Mas era também um gesto de beleza – um lembrete de que o corpo, quando é livre, fala mais alto que qualquer palavra.

Entre os anos 70 e hoje

Meio século depois, o Brasil vive outro tipo de tensão: o conservadorismo tenta voltar, agora com uma nova roupagem, às vezes travestido de “moral”, de “tradição”, de “valores”. Mas a essência é parecida: o medo do diferente, o desconforto diante do que escapa à norma.

E é curioso como a arte continua sendo o campo onde essas disputas se revelam primeiro. As mesmas perguntas que Ney fazia com o corpo, sobre identidade, expressão e liberdade de expressão ainda ecoam. Talvez porque o país, em muitos sentidos, ainda não aprendeu a lidar com a própria diversidade.

Mas Ney Matogrosso segue sendo um farol. Aos 80 anos, continua subindo ao palco com a mesma elegância feroz, desafiando o tempo e qualquer tentativa de enquadramento. Ele mostra que ser livre não é um ato de rebeldia juvenil, e sim uma forma de existir. Num mundo que volta e meia tenta empalidecer o que é diferente, Ney continua lembrando que a coragem também pode ser bonita.

 

Para ouvir e lembrar

  • Sangue Latino – Secos & Molhados (1973)
  • Rosa de Hiroshima – Secos & Molhados (1973)
  • Homem com H – Ney Matogrosso (1981)
  • Amor – Ney Matogrosso (1983)