Quando o Fenômeno brasileiro quebrou o rock alternativo americano

O dia e a situação popular que reuniu Billy Corgan, do Smashing Pumpkins e Ronaldo no mesmo estúdio

Quando o Fenômeno brasileiro quebrou o rock alternativo americano

Há uma certa melancolia que só o ritmo brasileiro consegue quebrar. O Smashing Pumpkins, banda americana formada no final dos anos 1980, sempre carregou essa aura: rebeldia juvenil e introspecção.

E há uma história bastante curiosa sobre isso. Aconteceu em 1998, durante a turnê de divulgação do álbum Adore, quando a banda veio ao Brasil. Entre os shows e entrevistas, o grupo participou do Programa Livre, na época apresentado por Serginho Groisman, no SBT – uma espécie de ágora televisiva, onde artistas respondem perguntas diretas de estudantes e fãs. Só que, naquela tarde, a química não aconteceu.

Quando um jovem perguntou se a banda escrevia suas próprias músicas, Billy Corgan respondeu com ironia:

— Michael Jackson compõe todas as nossas músicas. Mas, quando ele está ocupado, um macaco faz.

E ao citar influências:

— Romário costumava inspirar muitas de nossas músicas. Agora é o Ronaldo.

O público, acostumado a reverenciar astros estrangeiros, reagiu com silêncio. Serginho percebeu o desconforto e perguntou:

— Você sabe quem é o Ronaldo? Quer conhecê-lo?

O jogador estava ali, por acaso: gravava uma entrevista com Jô Soares para o programa Jô Soares Onze e Meia, e por sorte atendeu ao convite de Serginho. Claro que Billy e sua gangue não tinham a menor noção disso.

Em segundos, Ronaldo Fenômeno entrou no estúdio. A plateia explodiu em gritos e aplausos. O clima virou de ponta cabeça: o carisma espontâneo, o humor e o improviso brasileiros dominaram o palco. Billy Corgan então, visivelmente envergonhado, autografou um CD para Ronaldo, que respondeu sorrindo:

— Ganhei de presente um CD! Mas eu não falo inglês, cara!

O programa, que começara como uma vitrine para o Smashing Pumpkins, transformou-se em celebração da brasilidade: a melancolia sofisticada do rock se quebrava com o afeto popular do Brasil.

Billy Corgan nunca comentou publicamente sobre o episódio. Anos depois, manteve-se fiel à sua postura de nunca “dar ao público o que esperam”. Naquele instante, porém, até o rocker mais introspectivo se viu quebrado pelo espírito brasileiro. E sempre que a banda vem ao Brasil, o público não deixa de lembrar desse encontro, digamos, pitoresco.

Reviva esse encontro histórico no vídeo a seguir.