Roberta Miranda
A majestade do canto do sabiá

Roberta Miranda - Reprodução Instagram
Dados Biográficos
Há vozes que nascem de dentro da terra. Que brotam da dor, do amor e da esperança — como se cada nota fosse uma oração. Assim é a de Roberta Miranda: firme como a raiz do sertão e delicada como o canto do sabiá.
Rainha coroada pelo povo, a cantora transformou sua dor em arte e seu canto em revolução. Num universo dominado por homens, ela ergueu a bandeira da mulher sertaneja — forte, sensível e dona da própria história. O caminho foi árduo: enfrentou o machismo, a fome, a violência e os “nãos” de uma indústria cega para o talento feminino. Ainda assim, manteve-se fiel à sua essência de emoção, poesia e fé.
Nascida Maria Albuquerque Miranda, em João Pessoa, na Paraíba, cresceu na miséria. “Fomos miseráveis porque não tínhamos o que comer”, declarou. Aos oito anos, mudou-se com a família para São Paulo, onde a música se tornou refúgio e destino. O vizinho, o maestro Hermeto Pascoal, foi um de seus primeiros mestres — o som que atravessava a rua e a inspirava a sonhar. Mas a adolescência lhe trouxe uma verdade dura: descobriu não ser filha biológica da mãe que a criou e, expulsa de casa, Roberta conheceu o fundo do poço — dormiu onde dava, trabalhou em salões, bares e boates, cantando em troca de um prato de comida. Sofreu violências, perdeu um filho, mas nunca perdeu a fé. Prometeu à mãe que mudaria o destino das duas — e cumpriu.
Antes mesmo de se lançar como cantora, já era reconhecida como compositora — mais de 400 músicas gravadas por nomes consagrados. Hoje são mais de 800 composições, entre elas verdadeiros clássicos. No início, o samba quase a levou: escreveu Mãe Guerreira para Clara Nunes e canções para Ruy Maurity e Sônia Santos. O chamado do sertão, no entanto, falou mais alto.
A virada veio com A Majestade, o Sabiá, eternizada por Jair Rodrigues — o hino que abriu as portas do país para Roberta e a transformou em um fenômeno popular. Vieram os discos de diamante, as multidões, os aplausos. Vieram também os palcos do mundo e a consagração definitiva como Rainha do Sertanejo.
Entre mais de 30 milhões de discos vendidos, Roberta construiu uma carreira de fé, generosidade e resistência. Gravou, compôs e inspirou gerações. Em 2017, reuniu as novas vozes femininas do sertanejo no DVD Os Tempos Mudaram — um marco de sororidade e reconhecimento. Ao lado de Marília Mendonça, emocionou o país: “Ela nos colocou no lugar onde deveríamos estar”, disse a jovem e saudosa cantora.
Em 2025, celebrou 40 anos de carreira e lançou sua biografia, Um Lugar Todinho Meu, escrita pela jornalista Joyce Pascowitch — um relato sincero e necessário sobre dor, superação e fé. E, como quem encerra o ciclo com flores, voltou aos palcos ao lado de Ana Castela, regravando Vá com Deus — um encontro de gerações, unidas pela força feminina que Roberta ajudou a plantar.
Hoje, ela olha para trás sem se vitimizar. “Nunca me viram lamentar. Sou uma vencedora. Cheguei aqui. Mas, aos cinco anos, de fome, cheguei a comer muro. Você sabe o que é isso?”, disse, sem medo da verdade. Roberta Miranda é a prova viva de que a arte pode curar. Sua voz ecoa como um canto ancestral que resiste ao tempo e à dor — lembrando que, mesmo quando tudo parece desabar, ainda há poesia no sertão e sabedoria no canto do sabiá.