Secos & Molhados: a história sem a voz do autor

Secos & Molhados: a história sem a voz do autor

Um dos estratagemas mais legais utilizados pelos cineastas, para mim, é o tal do “director’s cut”. Explicando melhor: em Hollywood, muitas vezes o filme pertence mais ao produtor (estamos falando de blockbusters, claro) do que do cineasta. É esse burocrata quem decide a duração do filme, as cenas devem entrar, quais devem sair e muitas vezes muda até o final. Ao cineasta, resta engolir em seco e lançar a versão que era do seu agrado tempos depois –a “director’s cut”.

Pois eu assisti Primavera nos Dentes: A história do Secos & Molhados, minissérie em cartaz no Canal Brasil, doido para ver o corte do cineasta original. No caso, João Ricardo, fundador e líder do trio formado ao lado de Gerson Conrad e de Ney Matogrosso, e que mudou os rumos da MPB no ano de 1973. Ricardo se mantém recluso, incomunicável, não quis dar entrevista para o especial e muito menos liberou as suas composições para serem tocadas. Uma decisão na qual ele está juridicamente amparado: o direito do autor é protegido por lei e este pode vetar o uso de sua obra caso não concorde com seu conteúdo.

A minissérie de Miguel de Almeida (autor do livro de mesmo nome, um compêndio que explica com detalhes a criação dos Secos & Molhados, bem como sua importância) se apoia nos depoimentos de Ney e Gerson e dos coadjuvantes do trio –o pianista Emílio Carrera e o baixista Willy Verdaguer–, além de Paulo Mendonça (o autor da letra do sucesso Sangue Latino) e fãs como Roberto Frejat, do Barão Vermelho, e as cantora Ana Cañas e Duda Brack. Se por um lado os músicos dão ricos detalhes sobre as sessões de gravação, o trio de convidados pouco acrescenta à história do trio que combinou rock, MPB, poesia e androginismo.

Secos & Molhados (1973), o disco, é um dos melhores discos da história da música brasileira. Poemas de João Apolinário (João Ricardo), Manuel Bandeira, Solano Trindade, Cassiano Ricardo e Vinicius de Moraes, entre outros, ganharam arranjos que iam do rock ao folk, passando pela música portuguesa e rondós. O impacto atingiu não somente o público adulto mas o infantil –aos seis anos, eu tinha um pôster deles no meu quarto. O trabalho vendeu tanto que a Continental, gravadora do grupo, derreteu os discos de vários outros artistas para fabricar mais LPs do trio.

Os Secos & Molhados terminaram em 1974, sob a acusação de mau gerenciamento financeiro por parte de João Apolinário, pai de João Ricardo, que assumiu o empresariado do grupo. Gerson e Ney não concordaram e pediram o boné. Por conta desse imbróglio, existe uma parte da crítica e do público que tende a diminuir o trabalho posterior de João Ricardo. Tolice. Ele tem discos solo lindíssimos (o de 1975, também chamado de “disco rosa”, traz até Roberto de Carvalho na guitarra) e reformou os Secos & Molhados, com sucesso, num trabalho de 1978 –e que traria Wander Taffo (guitarra) e Gel Fernandes (bateria), que depois criaram o Rádio Táxi. Lili Rodrigues, o vocalista, substituiu Ney à altura, embora carecesse do carisma do cantor original.

Primavera nos Dentes traz somente a versão de Ney e Gerson e muitas vezes seus depoimentos trazem mais bílis do que cérebro. No entanto, é uma ótima introdução ao grupo que chacoalhou a nossa música nos anos 1970. E agora, fica a pergunta: cadê o director’s cut de João Ricardo?