Só o groove salva
Jota Quest (Divulgação)

Quando o Jota Quest começou, em meados dos anos 1990, as nossas referências –que em grande parte continuam as mesmas até hoje– estavam profundamente ligadas à black music. O som nosso vinha, antes de tudo, da soul music, do funk, da música negra americana. A gente ouvia Motown, Stax (duas das principais gravadoras do gênero). Estudava aquela linguagem, aquele groove. No Brasil, Tim Maia , Banda Black Rio, Jorge Ben Jor, entre outros, nos encantaram. O boogie brasileiro, justamente por essa mistura única de soul e funk americanos com samba raiz e suingue brazuca soava muito bem. Como você sabe a mesma influenciou muita gente no Brasil e fora também.

Não por acaso, no nosso primeiro álbum, lançado em 1996, gravamos Dance Enquanto É Tempo, música menos conhecida do repertório do Tim Maia (era, praticamente, um “lado C”, mas que canção brilhante…). Chegamos até a falar com ele por telefone. A banda estava começando, ele nem nos conhecia. Achou divertido e fez até uma brincadeira. “Soul e funk de Minas? Nunca vi!”. No fim das contas, liberou a música e a mesma foi peça chave do álbum.

Lançamos então o primeiro disco e descobrimos que tínhamos também a vocação para a música pop …misturá-la com funk e soul foi uma transição natural e certeira. Penso que esse equilíbrio foi um dos segredos da nossa longevidade.

A HOMENAGEM

Depois de literalmente 30 anos de banda, surgiu a pergunta: “E agora?” A resposta parecia óbvia. Era hora de homenagear o maior cantor soul do Brasil! Porque se não fosse ele, talvez nem tivéssemos existido. Além da influência musical do Tim, existe uma ligação simbólica entre o cantor e o Jota Quest. Todo mundo conhece a história: o nome da banda nasceu a partir de J. Quest, brincadeira com um cartoon cult dos anos 1970. Foi ele quem passou a nos chamar de Jota Quest – tem um vídeo do festival Planeta Atlântida, no Rio Grande do Sul, onde Tim nos chama por esse nome.

Mas o projeto não começou de forma oficial. Ele nasceu de maneira despretensiosa.

No fim de 2024, durante o verão em Salvador …onde passo férias de verão há mais de 20 anos, na casa do meu sogro , pensei: “Por que não produzir uma música do Tim Maia aqui?”. Hoje é possível fazer uma pré-produção inteira no computador. Temos um grande estúdio em Belo Horizonte, mas a tecnologia permite começar de qualquer lugar do planeta apenas com um laptop. E começa assim
Um dia nestas férias de 2024, navegando pelo YouTube achei uma música perdida do Tim, chamada Estrela do Meu Show. Quando a escutei, veio um flash da infância: meu pai escutava essa música no carro, em fita cassete. Ela tem mais de 40 anos, e eu nem lembrava mais dela. Logo fui procurar saber sobre a mesma e vi que não estava em plataformas digitais, não aparecia nos álbuns oficiais, não constava nas discografia. Descobri que havia sido lançada apenas em compacto, lançada originalmente como lado B do compacto simples Vê Se Decide / Você É a Estrela do Meu Show, de 1981. Nunca entrou em um LP oficial. Era praticamente uma jóia escondida.

Resolvi adicionar um toque contemporâneo à música (traduzindo, tocando do que jeito que eu e a banda faríamos hoje). Fiz a pré-produção sozinho, em Salvador. Gostei do resultado e pensei: “Vamos fazer mais uma.” Comecei então a trabalhar também em Acenda o Farol, canção de Tim Maia Disco Club, trabalho que o mestre do soul lançou em 1978.

Quando voltei para Belo Horizonte, levei tudo para o estúdio da banda. O primeiro a ouvir foi o Rogério Flausino. Confesso que tive um momento de tensão: eu havia produzido tudo no tom original, sem consultá-lo. E se não fosse o tom dele? Quando ele chegou, ouviu, adorou e cantou na hora, no mesmo tom que eu tinha produzido. Foi um alívio enorme.

A partir dali, o projeto ganhou corpo. Gravamos baixo, guitarras, metais, cordas. A coisa começou a soar grande.
O passo seguinte era o mais delicado: conseguir autorização para usar a voz original do Tim . O projeto precisava da bênção da família e dos detentores dos direitos.

Entramos em contato com Carmelo, filho do Tim Maia. Havia um receio natural …será que ele aprovaria? Ele foi ao estúdio. Já tínhamos cerca de oito músicas encaminhadas. Colocamos para tocar Acenda o Farol, com a voz original do Tim, integrada à nova produção.

Com cerca de 20% da música executada, ele começou a chorar. Ali, todo o medo foi embora. A aprovação veio de forma genuína, emocional. Em outras faixas, até questionou: “Mas essa não vai ter a voz do meu pai?” Aquilo foi a confirmação de que estávamos no caminho certo. Recebemos a autorização da família e passamos a trabalhar oficialmente com as vozes originais.

UM PROJETO LEGÍTIMO

Esse projeto é, acima de tudo, legítimo. A história do Jota Quest está profundamente ligada à black music e ao Tim. Sem eles, a banda simplesmente não existiria. Ao mesmo tempo, nossa trajetória também foi construída com música pop de qualidade, que entrou para o imaginário coletivo brasileiro.

Assinar essa produção oficialmente é algo novo para mim. Já produzi outras coisas antes, mas nunca nesse nível. Produzir a própria banda é um desafio enorme técnico, emocional e artístico. Mas, no fundo, eu sabia: eu ouvi funk, soul e black music a vida inteira. Estudei o repertório da Motown e da Stax, toquei jazz e fui a fundo em todos os gêneros musicais possíveis e imagináveis. Não tinha como não fazer isso com verdade.

O projeto será lançado este ano, hoje estou confiante e muito feliz. É um presente poder celebrar Tim Maia dessa maneira, conectando passado e presente, e mantendo viva uma das maiores heranças da música brasileira. O groove salva!