Uma entidade chamada Mateus Aleluia

Uma entidade chamada Mateus Aleluia

Leonardo Coutinho era o correspondente em Salvador na revista em que eu trabalhava. Certo dia, me avisou que estaria mandando, via malote, o novo disco de Mateus Aleluia. Haja coração: quando criança –sim, e isso faz muuito tempo–, uma das minhas alegrias era assistir aos Tincoãs no Globo de Ouro, uma relatório semanal das paradas de sucesso no país.

Eles eram ousados demais para aqueles tempos e ainda mais ousados nos dias de hoje, onde as televisões censuram todo e qualquer intérprete que ouse falar “macumbeira” e “saravá” –sim, aconteceu isso numa emissora ligada a uma igreja. Três sujeitos (Dadinho, Heraldo Bozas e, claro, Mateus Aleluia) que uniram sambas de roda do Recôncavo Baiano e cânticos afro-brasileiros aos spirituals típicos do cancioneiro gospel americano. Canções como Cordeiro de Nanã e Deixa a Gira Girar se fazem presentes no meu dia-a-dia desde quando as escutei pela primeira vez, na década de 1970.

Cinco Sentidos (2010) marcou o retorno de Mateus Aleluia à Bahia depois de um bom tempo morando em Angola –ele e Dadinho se mudaram para aquele país no início dos anos 1980, um tanto desiludidos com a pouca repercussão comercial dos Tincoãs. Sua audição é quase uma experiência religiosa, outra compilação de sambas e cânticos entoados pela voz grave de Aleluia, às vezes auxiliado pela filha, Fabiana, ou com participação instrumental do maestro e pianista Ubiratan Marques –que depois formaria a Orquestra Afro-Sinfônico, combo que une África e Europa com uma categoria incomparável.

Eu demorei seis anos para, enfim, conhecer seu Mateus. Larguei férias, praia e me embrenhei com sua produtora na época, Paula Hazim (somos amigos até hoje). Aleluia estava no Gargolândia, estúdio localizado numa fazenda nos arredores de São Paulo. O papo rendeu uma matéria de duas páginas, por ocasião do lançamento de Fogueira Doce (2017), que permanece como meu predileto da discografia dele. E desde então nossos encontros se resumiram a apresentações desse cantor de voz única em São Paulo –a mais emblemática, para mim, se deu no Sesc Pompeia em 2018, quando ele fez a platéia inteira cantar Amor Cinza com ele.

Mateus Aleluia está de volta agora com Baía Profunda, um ambicioso projeto que ele acalenta desde 2003. “Baía profunda não é a Bahia com h, Bahia estado que foi designada pelos homens. É a de Todos os Santos, que reforça a confluência de vários povos na criação de um ambiente de encontro, produção, pensamento e produções artísticas”, declarou ele na entrevista realizada no Espaço Cultural da Barroquinha, em Salvador, onde anunciou o projeto. “Uma terra que um dia tinha habitantes e que depois esses habitantes se encontraram com habitantes de outras latitudes, e isso se transformou em quê? Numa confluência de pessoas de vários pontos do mundo”, conclui.

O projeto Baía Profunda foi lançado numa apresentação na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, no dia 08 de novembro. Seu Mateus se fez acompanhar pela Orquestra Afro-Sinfônica, do maestro Ubiratan Marques. Que abre os trabalhos com Hino do Baía Profunda, um casamento do universo das músicas da Europa e da África, com direito a um coro apaixonado e um ataque de contrabaixos dignos das obras do alemão Ludwig von Beethoven (1770-1827). Tem tom solene, triunfal e espiritual que antecede a entrada de Mateus Aleluia no palco. Ciranda dos Meninos marca o início de uma apresentação memorável, na qual o cantor revisita o repertório de seus discos solo.

Quem Guiou a Cega?, por seu turno, é sucedida pelo relato de Seu Mateus a respeito de Cosme de Faria (1875-1972), o rábula baiano, defensor dos pobres, e cuja defesa apaixonada de um sujeito numa acusação falta de estupro inspirou a criação da canção.

Seu Mateus desfila o roteiro de Baía Profunda como se estivesse praticando missa para um público devoto e entregue –que se agiganta nos versos de Fogueira Doce e emociona a todos no coro de Deixa a Gira Girar e Cordeiro de Nanã. Esta última, aliás, traz para o palco Carlinhos Brown e Margareth Menezes. Em respeito à ancestralidade presente, eles se contentam em fazer coro, como se estivessem numa oração. Maracatu do Congo, do repertório da Orquestra Afro-Sinfônica, fecha a tampa da apresentação.

Leonardo Coutinho, aquele que me apresentou o disco, esteve comigo o tempo todo durante a apresentação. Não em corpo, visto que hoje mora em Washington D.C., mas não houve um momento em que não pensei no amigo –a ponto de ganhar trechos do espetáculo daquela noite, gravados por mim e enviados quase imediatamente após o final da canção. Afinal, o que seu Mateus une nem Donald Trump separa.